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Afonso Pinto Coelho 27/05/2020 - A Entrevista

Na passada semana não tive oportunidade de fazer uma análise de alguns detalhes da entrevista de Frederico Varandas ao Canal 11, a qual merece algumas considerações em função de alguns temas abordados, nomeadamente aqueles de natureza económico-financeira.

Frederico Varandas disse na entrevista: “o Sporting devia muito dinheiro à Gestifute. Reduziu muitos milhões da divida à Gestifute pelo acordo Rui Patricio”.














Se verificarmos o Relatório & Contas do 1º Trimestre 2018/2019 da Sporting SAD (posição a 30 de Setembro de 2018 - ver documento em anexo) já elaborado no domínio da Administração da Sporting SAD presidida por Frederico Varandas, não existe nenhuma divida à Gestifute. No dia 31 de Outubro de 2018, através de um comunicado à CMVM, a Sporting SAD refere uma suposta divida peticionada pela Gestifute (ver anexo) no valor de 9,05 Milhões de Euros e que subitamente, conforme comunicado no mesmo momento à CMVM, desce para 4 Milhões de Euros, os quais foram supostamente pagos/descontados no momento do acordo entre Sporting e Wolverhampton. Regista-se e estranha-se esta dualidade de critérios na assumpção desta elevada divida à Gestifute em apenas o prazo de um mês sem litigância, considerando que não estava reconhecida contabilisticamente a 30 de Setembro de 2018, comparativamente ao litígio com a Sampdoria relativamente a parte do valor da transferência de Bruno Fernandes para o Manchester United reclamado pelo clube italiano, ou relativamente ao diferendo da partilha do passe de Rodrigo Battaglia com o Sporting Clube de Braga.


Mais, Frederico Varandas revelou que o Sporting fez um protocolo com este mesmo clube (Wolverhampton), no momento do acordo por Rui Patricio, no valor de 2 Milhões de Euros a pagar pelo Sporting e que se traduziu no empréstimo do jogador chinês Wang que não jogou um único minuto pelo clube em meia época que permaneceu no Sporting.


Por outro lado, Frederico Varandas referiu que a operação de titularização de crédito da NOS no valor de 65 Milhões de Euros foi prevista e planeada na campanha eleitoral das Eleições 2018, e que o Pilar V - “Estabilidade financeira” do programa eleitoral da Candidatura “Unir Sporting” está cumprido na integra, excepto a 2ª fase da reestruturação financeira. Se consultarmos o programa eleitoral da candidatura “Unir Sporting” no Pilar V - “Estabilidade financeira” não encontramos qualquer referência a qualquer operação de titularização de crédito.


Ao contrário do que Frederico Varandas diz, existem mais do que uma medida por cumprir, pois a grande maioria das medidas deste “Pilar” do seu programa eleitoral não foram ainda cumpridas. Assim, as VMOCs não foram ainda recompradas, conforme promessa eleitoral, bem como não existe nenhum acordo conhecido para o Naming do Estádio e da Academia. Desconhece-se qualquer internacionalização de fontes de financiamento da Sporting SAD, excepto as receitas provenientes das transferências de jogadores, muitos dos quais por valores abaixo do preço de mercado. Por outro lado, desconhece-se a criação de instrumentos de divida com a associação a produtos financeiros que os sócios possam subscrever para comparticiparem de forma indirecta as contratações de jogadores, bem como de parcerias preferenciais com os núcleos para a venda de produtos oficiais do clube.


Relativamente à evolução do Passivo da Sporting SAD (304,1 Milhões de euros em 31/12/2019), regista-se a insistência por parte de Frederico Varandas na inexplicável comparação com os valor do final do exercicio económico 2017/2018 (310,9 Milhoes de Euros) e não com o final do exercicio económico 2018/2019 (282,5 Milhoes de Euros), momento em que o anterior Conselho Directivo cessou funções. É factual que o Passivo em 31/12/2019 era superior ao Passivo em 30/6/2018, logo daí se pode concluir que o Passivo aumentou desde que o anterior Conselho Directivo cessou funções. Talvez isso explique a recusa em comparar ambos os valores mencionados.


Na entrevista ao Canal 11, Frederico Varandas procurou justificar a subida do Passivo através da operação de titularização de créditos da NOS. Em nenhum momento da campanha eleitoral da candidatura “Unir Sporting”, Frederico Varandas falou em qualquer operação de titularização de crédito. Mais, a operação de titularização de crédito da NOS foi concretizada apenas em 20 de Março de 2019 (ver anexo), ou seja, mais de 6 meses depois depois dos actuais Orgãos Sociais terem tomado posse, e a poucos dias da data-limite de 31 de Março que a UEFA determina para controlo de dividas vencidas entre clubes, e que pode inibir os clubes devedores incumpridores de participarem nas competições europeias da época seguinte.


Deste modo, conclui-se que esta operação de titularização de crédito foi negociada “sob pressão” com a Sagasta (Grupo Apollo) em condições altamente desvantajosas para a Sporting SAD, na medida em que a Administração presidida por Frederico Varandas teve mais de 6 meses para procurar soluções financeiras para saldar compromissos financeiros que sabia que teria de honrar no limite até 31 de Março de 2019, e apenas o conseguiu fazer muito próximo do prazo limite, com as consequências obvias de perda de capacidade negocial que essa situação acarretou. Talvez por esse motivo, a actual Administração da Sporting SAD nunca divulgou a taxa média anual desta operação, que a juntar à taxa de intermediação financeira da operação de titularização de crédito da NOS, estima-se que se situe muito perto da casa dos dois digitos percentuais. A questão da elevada taxa média anual da operação de titularização de crédito da NOS é uma das principais variaveis que explica grande parte do aumento do Passivo, variavel essa que Frederico Varandas e a sua Administração da SAD insiste em omitir.


Frequentemente já foi referenciado por Frederico Varandas que o défice operacional tem vindo a ser reduzido. Conforme se pode verificar através das Demonstrações de Resultados (em anexo), os resultados operacionais sem transacções de jogadores são cada vez mais negativos, exercicio 1ºSemestre 2019/2020 (-16,115 Millhões de euros) vs exercicio 1ºSemestre 2018/2019 (-8,988 Milhões de Euros), e exercicio anual 2018/2019 (-29,073 Milhões de euros) vs exercicio anual 2017/2018 (-18,671 Milhões de euros). Apenas as transacções de jogadores tem permitidos resultados operacionais positivos, muito à custa da delapidação de activos do clube (jogadores) transferidos na maior parte das vezes por Valores liquidos (Valores brutos-Comissões) muito abaixo dos valores de mercado dos mesmos, o que se têm traduzido numa diminuição da capacidade competitiva da equipa de futebol profissional, conforme se comprova pelos mais recentes resultados desportivos.


Ainda no que se refere aos resultados operacionais, Frederico Varandas fala frequentemente em grandes poupanças em “Gastos com o Pessoal”, a qual está incluida nos “Gastos Operacionais”. Conforme se pode verificar, a variação desta rubrica no exercicio 1ºSemestre 2019/2020 (-35,090 Milhões de euros) relativamente ao exercicio 1ºSemestre 2018/2019 (-35,831 Milhões de Euros) é quase marginal, e no que se refere ao exercicio anual 2018/2019 (-68,901 Milhões de Euros) comparativamente ao exercicio anual 2017/2018 (-73,864 Milhões de Euros) explica-se grosso modo pelo efeito do diferencial salarial de Jorge Jesus (2017/2018) face a José Peseiro + Marcelo Keizer (2018/2019).


Por outro lado, Frederico Varandas disse na entrevista que a Sporting SAD teve de pagar mais de 40 Milhões de euros de dividas, a Clubes e a Agentes, herdadas do anterior Conselho Directivo. Considerando este facto, não se entende em termos de coerência como é que a divida desta rubrica tem vindo a aumentar progressivamente, de 44,029 Milhões de Euros em 30/06/2018 para 47,967 Milhões de Euros em 30/06/2019, e para 50,729 Milhões de Euros em 31/12/2019.


Além disso, o actual Presidente do Conselho Directivo referiu que será realizado um investimento de 12 Milhões de Euros na Academia, e que a formação é o ADN do Sporting. Apesar de eu concordar com a aposta na formação, entendo que o ADN do Sporting é o ecletismo e não a formação, pois o facto do Sporting ser um clube multi-desportivo desde a sua fundação é que define a sua matriz identitária histórica relativamente aos demais clubes. Considerando uma aposta tão forte e vincada na formação conforme Frederico Varandas referenciou na entrevista, tambem não consigo entender como se irá gastar mais na contratação de um treinador do que o valor de investimento na modernização na própria academia.

Por ultimo, o Presidente do Conselho Directivo não teve uma única palavra na referida entrevista sobre os mecanismos de compensação para os sócios portadores de Gamebox Modalidades, abordando apenas os mecanismos de compensação para os sócios portadores de Gamebox Futebol.


No entanto, já depois da entrevista e depois dos nossos dois maiores clubes rivais terem anunciado quais os mecanismos de compensação que iriam ter para os seus respectivos sócios, o Sporting Clube de Portugal anunciou os mecanismos de compensação para os sócios portadores das Gameboxes (Futebol e Modalidades). Congratulo-me pelos mecanismos de compensação à disposição dos sócios estarem em linha como os sugeridos aqui por mim algumas semanas atrás. No entanto, não posso deixar de manifestar a minha discordância relativamente à janela temporal dada aos sócios para exercicio dos seus direitos. Sendo as Gameboxes em questão relativas à época desportiva 2019/2020 (exercicio económico do periodo compreendido entre 1 de Julho de 2019 a 30 de Junho de 2020), o periodo para que os sócios pudessem accionar os seus direitos (reembolso ou vouchers) deveria ser o compreendido entre 1 de Junho de 2020 a 30 de Junho de 2020, independentemente dos vouchers poderem ser utilizados na época desportiva seguinte (2020/2021).


Esta abordagem em termos de horizonte temporal, iria permitir uma alocação orçamental mais correcta dos valores dos vouchers/reembolsos em termos de exercicio económico/época desportiva. Espero que a janela temporal definida (até 30 de Setembro, ou seja, para além de 30 de Junho) para os sócios portadores de Gameboxes Modalidades poderem accionar os respectivos reembolsos/vouchers não seja uma forma “encapotada” para ajudar o Conselho Directivo a cumprir os objectivos orçamentais do actual exercicio económico (a nível de clube) e evitar uma eventual perda de mandato por incumprimento orçamental.


Em nome da “Suspeição Zero” do Programa eleitoral “Unir Sporting”, era bom que o Conselho Directivo pudesse no mais breve espaço de tempo esclarecer os sócios acerca deste tema, nomeadamente, quais os montantes totais que podem potencialmente ser objecto de compensação, quer em termos de Gamebox Futebol, quer em termos de Gameboxes Modalidades, e de forma irá alocar esses valores em termos de exercicio económico/época desportiva.


Saudações leoninas.



Afonso Pinto Coelho

27/05/2020


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