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Rugido Verde 15/08/2020 - Chamavam-me Balakov



Nasci na década de ’80 , mais precisamente em 1984. Saudades desses tempos. Oriundo de famílias bastante humildes, cresci e vivi numa velha casa, feita em paredes de adobe, até aos meus 14 anos, sem condições. Com imensa humidade, alguma bicharada, um soalho de madeira perfurado por ratos, sem uma casa de banho, e para acabar em beleza, num cenário e ambiente familiar bastante difícil. Coisas da vida. Meu pai que já faleceu, tivera problemas com drogas.


A minha mãe passava parte do seu tempo a trabalhar. Eu e o meu irmão – na altura o mais novo e com diferença de 5 anos – passávamos os dias a brincar com amigos pelos baldios, ao jogo das pistolas, às clássicas casulas, às infindáveis peladas no campo de saibro, a jogar na SEGA Master System lá de casa ou na SEGA Mega Drive do Fábio.


Tempos que apesar de difíceis, foram ao mesmo tempo bonitos e inesquecíveis. Onde é que entra aqui o Sporting? Certo… O meu pai tinha bastantes problemas, porém no fundo, era um bom homem, acho. Perdeu-se sem dúvida nos caminhos dúbios da vida, ao ligeiro toque apresentava um rasgado sorriso, uma piada, era um ser bastante sociável mas ausente, até nos momentos que o fustigaram de uma forma mais visível foi sempre aquela pessoa, toda a gente gostava dele e tinham pena dele, incluindo eu.


Foram ele e o meu tio que me ensinaram a ser do Sporting, e lamento nunca ter tido tempo para perceber que tipo de Sportinguista era ele, mas acho que isso também não interessa para a conversa agora, ele amava o Sporting e ponto final. Guardo, tanto a um como ao outro, um enorme carinho por me terem tornado Sportinguista.


Aprendi muito no meio da pobreza e percebi que o Sporting também é do povo, com as suas virtudes e com os seus defeitos, ao contrário do que essas elitezinhas de merda tentam transparecer. Chegados os anos anos 90, jogadores que me deixavam maluco com a verde e branca eram muitos, eram eles: o Hadji, o enorme Iordanov, o Figo, o Oceano, o Ivkovic, o Sá Pinto, a gazela Amunike, o Marco Aurélio, o inesquecível Cherbakov, entre muitos outros que eu sei bem que faltam aqui, mas estes são os que melhor recordo… E quantas e vezes com aquele jeito especial para as pinturas, desenhei o velhinho e grandioso José Alvalade, tal era o meu fascínio por esse Estádio e pelo Clube, campo esse que nunca tive o privilégio de visitar e que me entristece só de pensar nisso.




Mas em termos de jogadores, o verdadeiro para mim (e não só para mim), aquele que jamais esquecerei é Balakov. Para esse não tenho palavras e tenho-as todas. Aquela classe, aquele jogar, aquele remate, aqueles livres, o olhar de leão, a responsabilidade de vestir aquele equipamento…


Talvez com os meus 8/10 anos, nesse período de menino, demonstrava bastante jeito para a bola, era igualmente esquerdino como o mágico búlgaro, tinha jeito para a coisa dada a idade e ainda por cima – para mal dos meus pecados – tinha o cabelo enorme e meio encaracolado. Levei muitos balázios, caí inúmeras vezes naquele pelado cravejado de pedras na Quinta do Simão, mas levantei-me sempre, como um verdadeiro leão, porque era isso que eu era e sempre fui. Lembro-me da malta na sua grande maioria a mais velha, ficar fascinada com a minhas capacidades e habilidades e de os ouvir comentar de que «o puto joga muito e ele tem de ir para o Tabueira», clube esse bastante conhecido na região e não só, como grande formador. O SC Beira-Mar, esse, era para os filhinhos dos papás ricos de Aveiro, logo, essa opção foi sempre uma carta fora do baralho.


Nunca tive a oportunidade de ir para nenhum clube para aprender mais, melhorar e formar-me, desenvolver-me, sonhar, lá está, era pobre e não tinha recursos nem ajudas, transporte ou um pequeno apoio. Ainda tentei, mas cedo desisti. Há coisas que ficam connosco. Depois daquele treino, cansado e sem tomar banho, e ao subir de uma ladeira já no decorrer da noite com a bicicleta nos meus braços, as forças tinham ficado em campo, vejo a carrinha do clube com os meus colegas a serem levados comodamente para as suas habitações. E eu ali no meio do nada, sozinho.


Cheguei a casa nesse dia por volta das 23:30h. A vida tem destas coisas, que são como são, mas isto deixou-me a pensar bastante no porquê de não ter as mesmas oportunidades que outros. Uma mágoa enorme que me acompanhou durante largos anos e logo eu, eu que queria tanto jogar no clube do meu coração, o meu Sporting. Aos Domingos de manhã, aquele derby acontecia lá no pelado, chegou a ser ciganos vs. restantes, mas o normal era terriola vs. terriola, estão a ver a cena certo? Algumas vezes não me convidavam, outras sim. Aquilo era coisa para homens de barba rija, mas houve um dia que me convidaram com antecedência. E aqui, ficou uma imagem comigo que jamais esquecerei.


Eu não tinha chuteiras, se calhar nem umas sapatilhas de jeito para me apresentar naquele dia, não me lembro bem, muito menos coragem para pedir à minha velhota que me comprasse alguma coisa para jogar à bola. Fui então a correr para a casa do meu tio, talvez ele tivesse algo que me pudesse desenrascar. Procurou e procurou, e às tantas apresenta-me umas adidas nº 42, se não me falha a memória. Calcei-as e claro, eram demasiado grandes para o meu pé. Ele tentou convencer-me. Fiquei triste e desanimado, sem saber muito bem o que dizer. Questionei como é que iria fazer, pois queria mesmo levar umas chuteiras para aquele momento importante. A solução encontrada naquele momento pelo meu tio, foi a de preencher de algodão o resto da bota, e sim, a miséria tem destas coisas, mas apesar de algo reticente numa primeira fase, rapidamente fiquei convencido e até contente.


Lá fui eu! Sentia-me diferente, sentia-me confiante, apesar de alguns olhares desconfiados para os meus pés. O jogo tinha começado e eu sem tocar na xixa, estava meio desconfortável, mas pouco a pouco começo a sentir-me mais leve, a correr como nunca. Eu saltava, eu passava bolas como se tivesse calçado umas pantufas, fintava, sofria faltas, rematava com classe, eu rugia como sempre e no final depois do jogo que foi ganho pela equipa que eu representava, pegaram em mim e chamaram-me Balakov!!! Foi um orgulho para mim naquele dia associarem-me a uma lenda.


Eu era Balakov!!! Hoje sou eu o pai, pai de uma criança de 8 anos, que está presente, sem problemas de dependências, que através da educação transmito ou tento transmitir alguns valores que parecem perdidos na sociedade e que ninguém quer saber, mas também aquilo que é ser do Sporting. Hoje, ao contrário de ontem, é difícil encontrar referências que possa apontar e dar como exemplos. O Sporting está moribundo, sendo que a sua grande mais valia somo nós, adeptos e sócios. Até quando, é uma pergunta que deveremos fazer se queremos reverter a tendência destes últimos anos do lixo que é a a croquettagem.


O que eu quero passar com esta minha pequena história em formato de recordação, é que aquilo que o nosso Clube necessita é disto mesmo, de ter recordações, memórias e referências para os mais novos, sejam eles mais ou menos abastados, com mais ou menos dificuldades; precisamos de ganhar campeonatos; precisamos de ser competentes respeitando o símbolo que se carrega ao peito; sermos orgulhosos e querermos ser realmente do Sporting Clube de Portugal; precisamos de nos respeitar a nós próprios e isso faz toda a diferença na vida do Clube onde, para já, quem manda são os sócios… E não, não é com este rumo que lá vamos e a maioria já lá chegou.


Não queremos fraudes; não queremos gente que apague memórias, por muito boas ou más que elas sejam; não queremos adeptos e sócios marginalizados, ostracizados, rejeitados e colocados de lado; não queremos gente que não respeite os valores do clube e que trata o seu símbolo como se nada fosse; não queremos gente que tenta desculpar a sua constante incapacidade de gestão, com argumentos da treta suportadas por tácticas baratas, ao mesmo tempo que dinamitam e sabotam o Clube internamente! Não, não, isto que se passa não é inocente e pergunto eu, será que já não chega?! Acorda Sporting, mas acorda já! É para ontem.


Autor: Leão Comuna



Rugido Verde

15/08/2020


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