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Rugido Verde 08/07/2020 - Lendas de Leão



Nunca pensei que chegasse ao ponto que chegou agora. Nos últimos 20 ou 25 anos tenho acompanhado com mais atenção a vida política do Sporting. Vida essa a que eu jamais pensei vir a dar atenção. Tenho saudades do tempo em que vivia o futebol com a inocência de pensar que o futebol era aquilo que se via dentro de campo, normalmente ao domingo.


Infelizmente a idade traz-nos alguma maturidade e alguma experiência, e acabamos por nos aperceber que andamos a viver uma mentira a vida inteira. E eu aqui nem quero abordar questões que se passam no futebol em geral, se já me é difícil analisar o que se passa no meu clube então para isso tinha de fazer um retiro espiritual.


Voltando ao tema, cresci com a ideia de o Sporting ser um clube popular, apesar de ouvir dizer que era das elites, os Sportinguistas que eu conhecia e que me foram transmitindo o gosto e o orgulho de pertencer a este clube eram tudo menos elite. Basta referir que a pessoa que me levou a Alvalade ver o Sporting pela primeira vez era analfabeto, só por aí podem ver a ideia que eu fazia do Sporting ser das elites.


Tendo em conta que a primeira vez que fui a Alvalade foi em 1976, vivi durante a infância e adolescência os tempos de João Rocha e assisti já com alguma consciência à sua saída. Aquilo a que me habituei durante esses anos foi realmente ao tal Sporting eclético, ganhador e de matriz popular.

Após a saída do presidente João Rocha vieram então os primeiros tempos conturbados de que tenho memória. Os mais velhos lembrar-se-ão das dificuldades que vivemos, das quais os mais novos entretanto foram tomando conhecimento.


Adiantando, depois da presidência de Sousa Cintra, que agora acha que é da elite, mas na altura era ridicularizado pelos doutores, aparece então o famigerado Projecto Roquette. E no início pensei que poderia ser um bom projeto, dentro da minha ignorância parecia-me que podia vir a ser coisa boa. Gente da alta finança, banqueiros, empresários famosos, advogados, juízes, políticos… estaria ali o know-how e a capacidade de mover influências para fazer com que o Sporting saísse do marasmo em que se encontrava. Realmente começaram por ser pioneiros, constituíram a SAD, idealizaram e executaram o Projecto Alvalade XXI, entretanto o Sporting voltou a ser campeão quebrando um jejum igual ao que estamos a viver neste preciso momento.

Mas, como que de uma fatalidade se tratasse, ou não fosse o Sporting aquilo que conhecemos, o pior estava já ali ao virar da esquina.


A seguir começou a vir ao de cima aquela que era a intenção real dessas elites que tomaram conta do clube. Começou a faltar o dinheiro, começou a ser vendido o património que tinha sido construído, começaram os negócios duvidosos que envolviam património do clube e empresas com ligações a dirigentes, começaram as cooptações, tudo isto perante a passividade da maioria dos SÓCIOS e o descontentamento de alguns mais esclarecidos, que não era o meu caso, que tentavam já desde aí chamar a atenção para o facto do Sporting estar a ser (mal) gerido por uma espécie de dinastia que se estava a apoderar e aproveitar do Sporting.


Foi também por essa altura e por intervenções de alguns dirigentes que se percebeu que havia a intenção de começar a tirar a voz aos SÓCIOS. O Projecto Roquette mostrou afinal que era um fiasco em todos os sentidos, como se viu pelo descalabro a que nos levou até que José Eduardo Bettencourt se deu conta da sua incapacidade para gerir o clube e devido ao aumento da contestação apresentou a demissão.


Estamos então em 2011, e nas eleições que se realizam para eleger o sucessor de Bettencourt soa um grande sinal de alarme. Perante o aparecimento de alguém de fora do circuito fechado a que o clube estava votado cozinha-se então o famoso churrasquinho que coloca o inenarrável Godinho Lopes na presidência e demonstra que realmente há a intenção de que não sejam os SÓCIOS a decidir o futuro do clube.


Mas como a incompetência é como a verdade, e acaba por vir sempre ao de cima, o reinado tinha o destino traçado e durou mais meio mandato até que deixaram o clube em risco de falência e em risco até de descer de divisão tal foi a performance desportiva nessa época. Aliás, se tivessem levado a época até ao fim não sei o que teria acontecido.

Com o clube no estado em que se encontrava a dinastia deu então um passo atrás e apresentou um tal de Peyroteo Couceiro às eleições só para não fazer falta de comparência e Bruno de Carvalho ganhou as eleições com, salvo erro, 55% dos votos.



Não vou estar a falar muito sobre o trabalho de Bruno de Carvalho na recuperação financeira e desportiva do clube porque é um facto recente e que toda a gente conhece. Digo só que foi um homem que fez um grande trabalho, na minha opinião, tanto nesses sectores como principalmente ao fazer do Sporting novamente um clube com a matriz popular que vinha perdendo desde o meio da década de 90. Quase 20 anos. Finalmente os SÓCIOS voltaram a ter voz e a participar activamente na vida do clube.


No entanto, a dinastia das elites não tinha abandonado o seu propósito, apenas recuaram estrategicamente porque não havia muito por onde comer. Foram trabalhando no submundo das influências e foram preparando uma estratégia para conseguirem voltar ao poder, e assim que o pote do mel voltou a encher, não perderam a oportunidade e puseram o plano em marcha. O plano foi delineado de forma a acabar com a vida de quem os conseguiu afastar do poder e trazer de volta o Sporting popular e eclético que eles tinham arrumado num canto.


O Sporting campeão em todas as modalidades, menos naquela que todos sabemos, e da forma que todos sabemos também. Esse homem foi destituído pelos SÓCIOS numa assembleia com enorme participação, foi suspenso pela comissão de fiscalização e impedido de participar nas eleições em que mais SÓCIOS participaram, foi expulso pelos SÓCIOS no Pavilhão que mandou construir, tudo isto tendo como base uma mentira e uma cabala que foi desenvolvida pelas elites que actualmente mandam no Sporting, e da qual foi completamente inocentado em tribunal.

Isto tudo com o beneplácito dos SÓCIOS do Sporting. Agora que se encontram no poder, essas elites conseguem mover as influências necessárias para que se mantenham por lá, sim, eles movem influências se for em proveito próprio, para o Sporting é que não. Conseguem manipular a Comunicação Social e outros meios que ajudam a passar a mensagem que mais lhes interessa. Isto tudo nas barbas dos SÓCIOS.


Este romance já vai longo, mas está a chegar ao ponto que me levou a falar sobre ele por escrito. Apercebo-me, por vários motivos, que este regresso das elites foi preparado para ser definitivo e é isso que me causa transtorno. Olho para o grupo de trabalho que foi constituído para estudar o I-Voting e percebo que pode ser esta a última vez que os SÓCIOS tenham uma palavra a dizer naquilo que respeita à vida do clube. É esse o motivo pelo qual escrevi em maiúsculas, e a negrito, a palavra SÓCIOS ao longo do texto. Se o I-Voting for aprovado, poucas serão as vezes que essa palavra terá alguma importância no dia-a-dia do Sporting.

Esta é uma reflexão de um sócio desiludido, mas não derrotado. Não se deixem levar nos encantamentos da modernidade, do votar quando quiser e onde quiser. Tretas. Se isso fosse fiável já era utilizado há muito tempo noutras situações e por outras instituições. Ainda há tempo, SÓCIOS.


O que eles querem na realidade é o pote do mel.

Saudações Leoninas. Viva o Sporting dos SÓCIOS com paixão.



Autor: Peyroteo


Rugido Verde

08/07/2020


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