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  • Opinião com Assinatura

Rémulo Marques 20/07/2020 - ESTRELAS CADENTES



Os últimos dias foram, e estão, claramente marcados pela situação que envolve o Clube Desportivo das Aves e, em concreto, a sua SAD.


Quem aqui acompanha os meus comentários deve estar recordado de um outro "artigo" precisamente sobre o CD Aves e sobre questões pouco claras, obscuras até, relacionadas com a SAD. Já na altura, infelizmente, disse que o "mal" não ficaria por ali. Que aquele áudio abjecto, inenarrável de Estrela Costa supostamente com Wei Zhao e um advogado, era apenas a ponta do iceberg.


O que assistimos nos últimos meses no que ao Desportivo das Aves é a verdadeira twilight zone, mas estes últimos dias é quase como estar a assistir a algo desde uma 5ª Dimensão. O Nosso Futebol é capaz de, por vezes, promover cenas dignas de uma liga marciana, extraterrestre.


Um emblema da nossa Primeira Liga na iminência de faltar aos últimos dois jogos da competição e, dessa forma, destruir a integridade da mesma? Uma SAD que durante três dias parecia que estava a fazer de tudo para que precisamente esses jogos não se realizassem?


Jogadores e treinadores reunidos num parque de estacionamento, impedidos de treinar e de realizar os testes ao Covid-19? Jogadores e treinadores sem receber há meses, mas ainda com um assomo de dignidade. De orgulho. De respeito pela instituição. Médicos com a mesma linha de carácter, que viabilizam os testes ao Covid-19 e que depois, por esse acto, são despedidos por telefone...


Este era um desastre à espera de acontecer. E, na verdade, a passividade que reinou, que grassou entre alguns dos principais protagonistas do nosso futebol e até do nosso Governo, na pessoa do Secretário de Estado do Desporto, faz com que também eles sejam parte do problema, que também eles sejam culpados.


Mas, é o que temos.


Assisti ontem, como muitos de nós, agoniado às imagens dos adeptos, dos verdadeiros adeptos, do CD Aves de olhar perdido, em sofrimento, à porta do Estádio. Do Presidente do clube, António Freitas, gente boa, que ama o Aves, em lágrimas, perante o cenário de falta de comparência frente a SL Benfica e Portimonense. Ele que, com os seus pares, se tem desdobrado para resolver tudo o que pode e se calhar o que não pode...


Lembrei-me dos adeptos do Bury, um clube inglês com 134 anos de história que desapareceu no final de 2019 depois de anos de má gestão, de gestão desastrosa e danosa. Lembrei-me deles agarrados aos portões do estádio a chorar, em pura dor.


Recordo o que fizeram ao Beira-Mar há uns anos atrás... a União de Leira, o Sport Comércio e Salgueiros, o Atlético Clube de Portugal, o Sport Clube Freamunde, ou no último ano o Centro Desportivo de Fátima e a Associação Desportiva Oliveirense...


Claro que as generalizações são sempre perigosas. Para todas as regras existem excepções. Podemos ver essas excepções no Famalicão, Tondela, Portimonense, Feirense, Leixões, Vizela, Estoril. Pelo menos aparentemente. Pelo menos, até ver. E nestes assuntos de SAD's e investidores externos, nestes assuntos de SAD's e da ligação com os clubes, o melhor mesmo é não passar cheques em branco. Literalmente.


Por falar nisso, volto a bater numa tecla que já aqui bati várias vezes: A enorme responsabilidade que os sócios têm quando em sede de Assembleia Geral aprovam várias coisas verdadeiramente estruturantes para o futuro do clube, e disruptivas com aquilo que é a sua história.


Não é só colocar o braço no ar. Não é só ir atrás do dinheiro fácil, das malas de cartão. Um sócio tem muitas mais responsabilidades, mas usa-as de forma descabida, de forma emocional (como quando se expulsam ex-Presidentes de forma leviana da sua condição de associado), e depois arrependem-se. E depois, é tarde demais.


Sejamos sérios: Sem alguns investidores, como alguns dos "bons exemplos" acima referidos, muitos clubes não tinham condições para estar no futebol profissional ou, em alguns casos, até para existir. É a verdade.


Como em tudo na vida, há bons investidores, e há maus investidores. Infelizmente, temos visto demasiados dos segundos. E dos primeiros temos visto muitos a perder a paciência com as incongruências, com as injustiças do futebol português, que ao invés de ter os seus organismos a premiar, a valorizar os cumpridores, encontra sempre subterfúgios, tangas, manigâncias para que os incumpridores passem entre os pingos da chuva.


A legislação que mapeia o regime das SAD está obsoleta, desactualizada. Há muito que todos o sabem. Há muito que quem tem responsabilidades assobia para o lado.


Porque será?


Isto, assim, interessa realmente a quem?


O que precisam mais as autoridades judiciais nacionais para investigar a sério casos como este do Desportivo das Aves?


Aplicassem o mesmo escrutínio, a mesma bitola, o mesmo julgamento, incluindo público, que reservaram a Bruno de Carvalho a outras Estrelas do dirigismo nacional, e o que não faltaria por aí era uma chuva de Estrelas (de)Cadentes.


Até para a semana.


Aquele abraço.


Rémulo Marques

20/07/2020


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