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Rémulo Marques 13/04/2020 - A decisão da FPF sobre as competições



Ponto Prévio: Nada, absolutamente nada, se sobrepõe à saúde das pessoas. Nada, absolutamente nada, tem qualquer tipo de prioridade quando está em causa a Vida.

Dito isto, quero, nesta minha primeira intervenção neste espaço, reflectir sobre a decisão da Federação Portuguesa de Futebol de, e passo a citar, "dar por concluídas, sem vencedores, todas as suas competições seniores que se encontram nesta data suspensas, não sendo atribuídos títulos nem aplicado o regime de subidas e descidas". À primeira vista, ou numa simples e redutora análise, qualquer pessoa com o mínimo de bom senso tende a concordar com a decisão. Não só porque, lá está, a mesma aparece como uma consequência da necessidade de defender, intransigentemente, a saúde pública (e dos agentes desportivos, em concreto), mas também como uma consequência lógica (?!) da decisão já previamente tomada em relação aos campeonatos de futebol de formação sob a égide federativa. Contudo, eu que nunca gostei de olhares simplistas nem redutores das coisas, muito menos quando as "coisas" são estruturantes - ou deveriam ser, olho para esta decisão da Federação Portuguesa de Futebol como uma gritante Não Decisão. E é uma Não Decisão para o Campeonato de Portugal, como é também para outras competições, como é o caso do Futebol Feminino. Porém, para não transformar este texto, esta análise, pessoal, deste tema que promete tornar-se em mais uma salada russa (ou melhor, portuguesa) do nosso futebol, vou centrar-me somente no Campeonato de Portugal. É, acima de tudo, uma Não Decisão precisamente devido ao Comunicado da FPF, emitido a 8 de Abril, que acaba, isso sim, por "comunicar" mais confusão, mais dúvidas, mais incertezas e, assim, provocar mais especulações, mais divisões, mais movimentos de bastidores. E tudo, porque é pouco claro e pouco concreto quando se exigia exactamente o contrário. "A FPF analisará e comunicará com a maior brevidade possível de que forma serão indicados os dois clubes que acedem à II Liga de futebol, bem como os representantes de Portugal na Liga dos Campeões de futebol feminino e de futsal masculino." "A FPF continuará a estudar com as associações distritais e regionais os moldes em que decorrerão as competições nacionais não-profissionais na época 2020/21." Esta era, tinha de ser, uma oportunidade de ouro para a Federação fazer aquilo que gosta de fazer passar que anda a analisar e a preparar, que era reformular com pés e cabeça um quadro competitivo aberrante, onde só sobem duas equipas em 72 participantes. Um quadro competitivo que envergonha o país. Um quadro competitivo que promove assimetrias orçamentais, desportivas e até sociais. Um quadro competitivo que se transformou em terreno fértil para o aparecimento, quase sem rei nem roque, de pseudo-investidores, de vigaristas, de gente sem escrúpulos. Clubes tomados de assalto, ao desbarato, jogadores abandonados, sucessivamente, treinadores e funcionários sem receber, sucessivamente. Clubes dirigidos por gente reles, fraca, sem capacidade, sem respeito pela história dos emblemas que supostamente deviam defender. Por gente que deixa jogadores, treinadores e funcionários à fome. Famílias à fome. Famílias sem água nem luz. Quando a Federação quer lá aparece uma reportagem, uma notícia, como este Domingo no Jornal A Bola, em que uma "fonte próxima" (que diabo, que a FPF tem sempre de comunicar por via de fontes próximas) em que se faz saber que a Federação está atenta, que vai mudar muita coisa já na próxima época, que as regras vão apertar para os incumpridores crónicos e para os megalómanos. Para os oportunistas e para os investidores das malas de cartão (mil perdões, Linda de Suza). Mas então, caríssimos senhores da Federação Portuguesa de Futebol, porque não fazer um Comunicado a sério, como se impunha, em que de forma clara, pragmática, sem lugar a subterfúgios, interpretações, dúvidas ou especulações, fosse dito quem sobe e qual o critério, que regras vão ser impostas na próxima época e porquê, que alterações de fundo estão a ser pensadas para o modelo competitivo mais absurdo que há memória. Se ainda não existiam bases para se fazer o comunicado, então porque não esperar pelas reuniões, que até já estavam agendadas, com os clubes? Porque não ouviram os clubes e as suas propostas? Porque não ouviram os jogadores? Porquê? Ah, ok, a saúde pública. Aham... estou a perceber. Como raio não percebemos logo todos que, pronto, digamos que, a pandemia e tal... não vamos ouvir ninguém. Acabou e pronto, não desce ninguém, nos distritais as associações que se agarrem à bomboca. Sobem dois à Segunda Liga, não temos que estar aqui com guerras de alargamentos no futebol profissional, e depois logo se vê como sobem. Em último caso sobem os dois mais pontuados, pronto. Se não der faz-se um playoff a quatro, com os actuais quatro primeiro classificados. Ou a oito, pronto, que Fafe, Lourosa, Benfica Castelo Branco e Real são capazes de fazer aqui algum barulho... Claro está, já sei, que vão dizer que para se fazer a reforma que todos conseguimos ver como necessária, terá de existir vontade da Liga e, em concreto, dos clubes das Ligas Profissionais, e que eles, já se sabe, não querem. Que heresia, Meu Deus, abdicar do seu quinhão. Jamais. Quem vier atrás que apague a luz e que feche a porta. A tão típica mentalidade do futebol português. E com isto, já se sabe também, o Presidente da Liga não pode fazer nada, porque são os clubes que decidem em sede própria. O Presidente da Federação também não pode porque a Liga não altera. Continuam a subir dois, e que toda a gente se dê como muito satisfeita. Mas, calma, que a Federação até aprovou uma linha de crédito para ajudar os clubes a pagar salários (e não, revelou a tal fonte tão convenientemente solícita a abordar um assunto que pretende esclarecer a posição benemérita da federação, para custear orçamentos de subida de nenhum clube). A Federação até está a trabalhar afincadamente no apertar dos regulamentos contra os incumpridores, contra a inscrição desmedida de jogadores, contra o abandono de estrangeiros (e não só). Calma meus Amigos, em 2020 acordou-se para a realidade dos últimos anos do Campeonato de Portugal. Em 2020/21 as novas regras apertam o cerco (foi isto que disse, Sra Fonte Próxima?). Mas por agora, e depois, continuarão a subir dois. Vamos lá ver que se calhar, até para não se arranjar muita confusão com associações distritais que se mexem bem, alarga-se isto até bem perto dos 100 clubes. Mas continuam a subir só dois que isto não é a casa da Mãe Joana. Com quase cem clubes a sustentabilidade financeira da prova, que já não existia, mais precária ficará. Mas calma, que as regras apertaram. Já agora, Sra Fonte Próxima da Federação, os clubes no Campeonato de Portugal que não pagavam já há meses aos jogadores, treinadores, e restantes funcionários? O prémio é manterem-se na prova, em detrimento de bons clubes, com estrutura, história e com histórico de cumprirem as suas obrigações que estão em zonas de subida nas associações distritais? Os clubes do Campeonato de Portugal que, há muito, já sabiam que iam ser relegados e que quase que desistiram, vão ser premiados com mais um ano de Campeonato de Portugal? As vossas regras apertadas da próxima época vão fazer o quê quanto a isto? Como dizia alguém famoso, é aguardar pelas cenas do próximo capítulo. Ou, se preferirem, é fazer as contas. A situação é excepcional. Isso que ninguém duvide. Mas nos momentos de excepção, nos momentos que nos colocam à prova, precisamos de líderes de excepção. De decisões excepcionais. Precisamos de líderes que não se escondem, que não tapam o sol com a peneira, que não empurram problemas com a barriga. Precisamos de líderes que indiquem o caminho, e perdoem a linguagem demasiado de balneário, sem tangas e sem medos. Este é o momento.



Rémulo Marques

13/04/2020



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