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  • Opinião com Assinatura

Rémulo Marques 08/06/2020 - Futebol? Não.



Diz-se por aí que o Futebol regressou. E, realmente, nesta última semana assistimos a vários jogos. 

Isso. Vimos jogos, mas não vimos futebol. 


E nem sequer estou a tecer aqui qualquer considerando sobre a qualidade dos mesmos (se bem que podia fazê-lo porque, na minha opinião, exceptuando duas honrosas excepções o que pudemos assistir, e como se previa, roçou o fraco e o sofrível).

Falo, isso sim, de um jogo que não foi, não é, não pode ser de Futebol. 


Foi um jogo de política, de interesses, de negócio, do que lhe quiserem chamar, mas não de Futebol.


"Isto" que se passou na última semana em Portugal é, acima de tudo, uma hipocrisia. Uma hipocrisia sem limites.

E o que vejo são dirigentes fracos, apenas preocupados com os jogos de poder, de bastidores, com o xadrez da manipulação, que até publicamente elogiam este jogo sem público, sem adeptos. É por um bem maior, dizem. Hipócritas. 


Repito: HIPÓCRITAS. 


Repito: FRACOS. 

Acrescento: Subservientes. 


Mesmo em Lisboa. Onde, no momento, se atravessa a situação mais crítica no que diz respeito ao controlo (ou falta dele) da Pandemia. Tivemos o 1 de Maio com camionetas e camionetas cheias a chegar ao Parque Eduardo VII. Tivemos e temos praias a abarrotar. Tivemos o tal espectáculo de comédia no Campo Pequeno, onde até as mais altas instâncias nacionais fizeram questão de estar.  Dir-me-ão, já sei, que foi tudo com os "devidos cuidados". Toda a gente de máscara. Tudo povo muito educado, civilizado. Esses jagunços do futebol não. São uns indigentes, uns indisciplinados, não se controlam, iriam infectar o país inteiro de Bragança ao Algarve. 


Coerência, meus senhores. Coerência é o que precisamos. E não de hipocrisia. Os estádios em Portugal, infelizmente, raramente enchem. Raramente têm lotações acima de um terço. E querem convencer as pessoas que ir a um cinema a 50% de lotação é mais seguro que um estádio com 30 mil lugares com mil adeptos, por exemplo? até com 10 mil?


Das duas uma, ou as limitações continuavam a ser gerais, ou então meus senhores isto que se está a passar é provavelmente das maiores aberrações de que há memória. Se é a saúde primeiro que queremos aqui enaltecer (e muito bem) então, por favor, sejam coerentes. Não me venham cá com as histórias que só no futebol é que não se podem encher restaurantes, cafés, aglomerar com mais de dez e muito menos ir aos estádios ou até para as suas imediações. 




Não há Futebol sem adeptos. Ponto. Não é por acaso que realizar um jogo à porta fechada é dos maiores castigos disciplinares que um clube pode sofrer. 


Aqui o castigo maior é para aqueles que, como ainda ontem vi, até se empoleiram em árvores, em escadas rudimentares, para conseguir ver um quarto de campo no Rio Ave - Paços de Ferreira. Aqueles como os adeptos do Boavista que subiram ao topo do prédio mais alto e mais próximo do Estádio do Bessa para agitar as suas bandeiras e explanar o amor ao clube e o apoio à equipa. 


E, por falar em Boavista, Dou um exemplo claro da Hipocrisia: Na Cidade do Porto já se aceita que o povo saia à rua para festejar o São João. Mas nesse mesmo dia, nessa mesma noite, o FC Porto - Boavista só... num Drive In ou em casa. Sem aglomerações de mais de dez pessoas. 




Drive In's? A sério? De tanta ideia boa para se importar, fomos buscar os Drive In's para o Futebol. Só me faltava mais esta. 


Rest my case. 


PS - Uma última nota para perguntar apenas e só o seguinte: Se o que aconteceu ao autocarro do Sport Lisboa e Benfica e às casas de Bruno Lage, Pizzi e Rafa, sucedesse no Sporting durante a presidência de Bruno de Carvalho? Não precisam de responder. Certamente estaríamos perante um acto atroz de terrorismo perante o qual até os mais radicais membros da Al Qaeda iriam parecer meninos do coro. 



Rémulo Marques

08/06/2020


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