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  • Opinião com Assinatura

Paulo Alcobia Neves 16/05/2020 - Os miúdos da Superior Sul

Quando em 1979 comecei a ir sozinho ao futebol, ainda se sentiam alguns resquícios do antigo regime. A Superior Sul, mais heterogénea e colorida era o contraponto de uma central cinzenta, conservadora e titulada (infelizmente com mais títulos aristocráticos que desportivos) e pouco ou nada ruidosa, onde o dress code predominante era ainda o fato e a gravata.


Naquele tempo as roulottes eram escassas, mas convivíamos indo para os jogos com horas de antecedência. Antes de entrarmos, alguns merendavam no velho campo de treinos enquanto outros aguardavam a sua vez nas intermináveis filas dos guichés dos cobradores de quotas e já então, todos, tínhamos que nos desviar dessa praga incurável que são as mulheres dos autocolantes (sim, sou capaz de jurar que são as mesmas só que na altura tinham 80 anos e agora devem ter aí uns 120). Por fim dávamos uma espreitadela na 10-A na expectativa de vermos algum dos nossos ídolos sendo que a bancada era o nosso ponto de encontro e foi também de lá que tantas vezes saímos juntos para acompanharmos as modalidades no velho pavilhão.


Ser sócio era sinónimo de entrarmos sem pagar em quase todos os eventos desportivos e mesmo nos jogos para o campeonato só pagávamos 4 vezes por ano, nos chamados “dias do jogo”. Os cartões de sócio eram as nossas gameboxes mas os lugares não eram marcados nem eram transmissíveis o que não invalidava que alguns, mais ousados, andassem discretamente os varandins a passar cartões cá para baixo.


Depois era aquela repetida emoção de entrarmos no Estádio e vislumbrarmos a grandiosa obra do Presidente Gois Mota. Ainda hoje se repetem no meu imaginário as imagens do velho Alvalade, o som estridente das buzinas a gaz e os pregões dos vendedores, “Olhó nogánogá, “olhá queijadinha de Sintra” cantados por homens trajados a rigor nos seus fatos de macaco cinzentos e gastos.

Os Miúdos da Sul (Alvalade 1980)

Autor: Luís Madaleno

Propriedade: Paulo Alcobia Neves

Dispersos pela bancada os mais velhos iam sintonizando os transístores enquanto ao longe, lá bem no topo, no único ponto onde o verde e o branco predominavam, aquela meia centena de miúdos indefetíveis, com as suas bandeiras gigantes emprestavam outro colorido à bancada.


Num ápice as horas voavam e levavam-nos àquele momento mágico em que festejávamos a entrada em campo dos homens que com as listadas saiam, em passo de corrida, dos túneis de acesso ao relvado.


Jornada após jornada, vitória sobre vitória nessa época de glória, fui-me apercebendo que os rostos da Sul eram quase sempre os mesmos, havia um grupo dos mais velhos (miúdos próximos da maioridade e alguns jovens adultos) onde pontificavam alguns colegas meus do São João de Brito e não só e que integrava nomes de quem hoje quase ninguém fala como o Pedro Pinheiro, o Prudas, a Zélia, o Zandonaide, o Amadeu, o Vilela, o Fraga, o Armando ou o Rui Humberto (falecido), depois os da minha geração e por fim, com merecido destaque, o incontornável Victor, o mais dedicado adepto do Sporting que alguma vez conheci.


A Sul era uma família e era-o de tal modo que me recordo de calcorrear aqueles intermináveis degraus de cimento e de em praticamente todas filas se levantarem braços a saudar um simples miúdo de 12/13 anos que ali se sentia em casa (hoje, passados mais de 40 anos, sucede-me o mesmo onde quer que haja uma bancada de Sportinguistas).


Num tempo em que os tambores ainda não se faziam ouvir na Sul, os cânticos eram poucos e repetitivos mas por vezes lá nos lembrávamos de fazer uma adaptação como a que fizemos a 26 de abril de 1980, num jogo em que o Rei Jordão marcou 5 golos ao Rio Ave ao som do refrão do tema “povo lapão” extraído de uma prestação insólita da Noruega na Eurovisão desse ano (quem tiver curiosidade pode procurar no Youtube por Sámiid ædnan Norway 1980 e ouvir a partir do minuto e meio... sim, transformámos isto num cântico).


Depois desse jogo o Sporting engatou para um final de campeonato épico deslocando-se, a 25 de maio, ao Municipal de Guimarães num jogo onde contou com uma enorme falange de apoio reforçada por um Comboio Verde a rebentar pelas costuras naquela que terá sido uma das primeiras excursões do movimento ultra (a primeira terá sido a de Vilanova em 1977), na história do clube.


A vitória no campeonato de 1979/1980, assim como o incremento das classes de ginástica, atrairiam doravante milhares de jovens para a causa Sportinguista, dando origem a um movimento sobre o qual continuarei a escrever aqui, quinzenalmente, aos sábados e com assinatura.



Paulo Alcobia Neves

16/05/2020


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