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Luís Teves 24/06/2020 - SÓ NOS SAEM DUQUES E CENAS TRISTES



Calhou aos sportinguistas a sorte de amarem um clube cheio de personalidades reputadas, de doutores, advogados, ministros, economistas, juízes e demais gente chique, e refinada, da sociedade portuguesa. Somos um clube onde não faltam pessoas iluminadas, eruditas, com nomes sonantes, e grupos como as Tertúlias, o Grupo Stromp, o Conselho Leonino, o Grupo Os Cinquentenários e por aí fora. Organizam-se jantares comemorativos, galas, eventos corporate, reuniões magnas, reuniões secretas, fóruns, seminários, conferências, simpósios e outros eventos, com designações pretensiosas, que dão e sobram para alimentar o narcisismo exagerado de um punhado de ilustres, vaidosos, egoístas e convencidos a quem muitos chamam “os notáveis”.


A mais recente iniciativa é o Sporting Com Rumo, constituído por 7 Jornadas com o objectivo de debater os temas fracturantes da actualidade do Sporting. Um clube unido não devia ter tantos temas fracturantes mas no Sporting é assim. A ideia até não é censurável, mas, como sempre, a maioria dos convidados para os diversos painéis, salvo poucas excepções, são os mesmos do costume: os prestigiados advogados, políticos, juízes, economistas e demais ilustres sportinguistas.


Quando consultei o website desta iniciativa reparei que Agostinho Abade é o Chairman destes encontros. Nada tenho contra ele até porque não o conheço, só que no comunicado sobre as jornadas, teve de ser mencionado que o Sr. Agostinho Abade é o sócio n.⁰ 477 do Sporting Clube de Portugal. Mais adiante revela o mesmo comunicado que Ricardo da Silva Oliveira, sócio n.⁰ 29319 é coordenador da iniciativa.


Apenas e só no Sporting há gente que pensa que o seu número de sócio lhes confere algum estatuto especial ou extra-sportinguismo, e esta mania de exaltar o seu número de sócio, para além de ser uma gabarolice patética, só por si já é um tema fracturante quanto basta.

Uma consulta à lista de convidados dos diferentes painéis permite-nos identificar vários ex-dirigentes do Sporting.


Homens como Dias Ferreira, Sérgio Abrantes Mendes, Rogério Alves, Samuel Almeida, Luís Natário, Miguel Almeida Fernandes, Luis Marques, Agostinho Abade entre outros. Também estão a participar várias figuras do sistema político nacional entre as quais podemos salientar alguns ex- ministros como Poiares Maduro, Jorge Coelho, Pires de Lima, Ângelo Correia e Miguel Relvas. Estarão do mesmo modo presentes, algumas figuras do mundo empresarial português como Miguel Frasquilho, Chairman da TAP, João Marques da Cruz que já exerceu funções na EDP e TAP, e José Braz da Silva, empresário e ex-candidato à presidência do clube.


Assim de repente fico com a ideia que muitas das pessoas convidadas para debater os problemas fracturantes do Sporting são ex-dirigentes que andam pelos corredores de Alvalade há décadas, contribuindo, eles próprios, com a sua incompetência, para a situação deprimente em que o clube se encontra hoje. Se isso já não bastasse foram também convidados políticos que fizeram parte de vários governos que roubaram os portugueses, que permitiram falências de bancos e que operaram num sistema de corrupção desenvergonhada. Adicionamos alguns empresários e administradores peritos na arte de falir empresas e temos aqui um cocktail perfeito para solucionar em três semanas os problemas do clube.


Não admira, por isso, que alguns conceitos que já foram abordados e discutidos por estes senhores sejam ideias que em nada promovem a inclusão dos sócios nas decisões de fundo necessárias para catapultar o clube para um futuro de sucesso. A ideia de “um sócio um voto” continua a ser liminarmente rejeitada por estes elitistas que teimam em defender um sistema que permite que uma maioria de sócios possa ser subjugada à vontade de uma minoria e que os corpos sociais do clube possam ser eleitos por um menor número de votantes.


Foi discutida a hipótese de futuras eleições serem disputadas num sistema de duas voltas. Esta proposta, interpreto-a como sendo uma medida talhada para dificultar a eleição de certos candidatos catalogados como “indesejáveis” porque na eventualidade de ganharem uma primeira volta terão de se submeter a uma segunda volta onde os derrotados terão oportunidade de se unir, fazer acordos de bastidores e tentar abater desta vez o candidato inconveniente.



Seguiu-se uma discussão onde era analisada a realização de Assembleias Gerais Delegadas. Aqui estou mais uma vez em desacordo porque a principal justificação apresentada para partir para este modelo de AGs é fazer com que estas se realizem num ambiente mais pacífico. De facto, algumas da últimas Assembleias Gerais não eleitorais tiveram um ambiente de alguma tensão mas, acredito que isto apenas se deve ao alto grau de frustração dos sócios que sabem que houve uma golpada no clube, que sabem que os seu voto está a ser monitorizado, que sabem que o PMAG não respeita os estatutos do clube e que sabem que as promessas eleitorais deste CD não estão a ser cumpridas.


Os problemas nas AGs do Sporting não estão associados com quais ou quantos sócios comparecem, mas sim com o facto de não serem observados nas mesmas os mais básicos princípios da democracia, onde sócios são expulsos do clube sem direito a defesa própria, onde decorre o sufrágio antes de serem debatidos os pontos em

votação e onde os sócios são desrespeitados. Serei sempre contra qualquer ideia que pretenda impedir a presença dos sócios em Assembleias Gerais e contornar o direito que todo o associado tem de participar activa, directamente e pessoalmente na vida do clube.


A meu ver, aquela que foi de longe a sugestão mais anedótica nestas jornadas, foi a hipótese avançada por José Braz da Silva, para garantir que o Sporting mantenha a maioria de SAD. O antigo candidato à presidencia do clube propôs que uma solução seria um investimento de mil euros por cada sócio do clube.


Segundo Braz da Silva este nem seria até um grande sacrifício para os associados, uma afirmação que denota uma total falta de noção sobre aquilo que é a realidade económica dos portugueses em geral. Infelizmente, para muitos ilustres, a solução para os problemas do Sporting consiste sempre em meter as mãos nos bolsos dos sócios. Eu até seria capaz de ponderar fazer um investimento no clube mas não nos moldes que este senhor preconiza. Como não temos um sistema de um sócio um voto eu só aceitaria investir se a quantia investida por cada sócio fosse proporcional ao número de votos a que tem direito. Digamos: mil euros por cada voto! Não será justo que o valor de um investimento se ajuste

ao peso que cada um tem nas decisões tomadas em eleições e AGs?



É repugnante ver alguém sugerir que os sócios devem investir mais no clube poucas semanas depois da actual direcção ter pago 10 milhões por um treinador de futebol. É imoral insinuar que os associados devem fazer mais financeiramente pelo clube quando o CD rasga um acordo de reestruturação financeira em curso e assina outro protocolo com maiores encargos a nível de juros para o clube.


É obsceno pedir mais aos sócios quando a direcção compra mal, vende pior, e desbarata dinheiro na contratação e despedimento de treinadores como quem muda de gravata. É vergonhoso andar sempre a pedinchar aos sócios quando são os mesmos protagonistas há mais de 30 anos a gerir o clube de forma danosa e incompetente. É indecente pedir mais aos sócios quando o CD paga dois milhões por um protocolo com a China numa operação que, tudo indica, foi uma forma encapotada de pagar comissões adicionais a um agente.


A primeira semana deste Sporting com Rumo só veio confirmar aquilo em que há muito acredito: não há um verdadeiro compromisso em mudar o paradigma no Sporting Clube de Portugal. Pelo contrário apenas tem vindo a confirmar aquilo que temos constatado ao longo dos últimos dois anos que é uma forte investida pelos actuais donos dos destinos do clube em afastar os sócios das esferas do poder e calar cada vez mais a sua voz.

Para a semana há mais!



Luís Teves

24/06/2020



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20 comentários


heitorcosme9
heitorcosme9
08 de jul. de 2020

Luís Esteves li com atenção o seu testo e sinceramente devo dizer o seguinte : Um clube centenário com 114 anos que fez agora não pode não deve ter só pessoas que apenas procuram os seus interesses e a destruição do clube e tem sido os mesmo de anos para cá : Não nos podemos e nem devemos esquecer como se encontrava o nosso clube em 2011 e 2013 quase na linha de agua para segunda divisão e salário em atraso de 4 meses e sem dinheiro para pagar aguas luz Etc ,onde paira os verdadeiros sportinguistas com Amor ao clube de coração,mais será que agora não encontramos uma solução credível para afastar estes incompetentes que desprezam os estatutos…

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Jorge Mendes
Jorge Mendes
25 de jun. de 2020

é uma chatice ter que aturar essa escumalha de sócios nas AGs..... percebe tio

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Rui Barbosa
Rui Barbosa
24 de jun. de 2020

Eu agradeço este comentário. Pena tenho que não fosse observado nessa tal reunião elitista. Ao que parece, estão todos de acordo em manter e até reforçar o estatuto elitista do nosso clube.

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Diogo Farrajota
24 de jun. de 2020

Excelente análise ao panorama não só atual (infelizmente) como ao dos últimos 40 anos do nosso clube. Exceptuando as presidências de Sousa Cintra, ( à sua maneira, dotou o Sporting de grandes equipas de futebol e uniu os adeptos independentemente das suas condições sócio económicas) e Bruno de Carvalho (que em parcos 5 anos retirou o Sporting da pior crise económica da sua história, da pior classificação no campeonato, 7º lugar, para patamares de excelência em que apenas faltou o campeonato e construiu um pavilhão entre muitas outras coisas positivas).

Voltando à análise de Luís Tevez, não podia estar mais de acordo, são sempre os mesmos vaidosos que aparecem como fazedores de opinião ou até salvadores da pátria. O Sporting…

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jaapimentel
jaapimentel
24 de jun. de 2020

Caro sócio Pedro Campos . E quem irá garantir que em Setembro aquele será o resultado genuíno da votação dos sócios ?... Quem irá fiscalizar a contagem e a acta será tornada pública de forma transparente ?... Tenho quase a certeza que o Gerinho não concorda com o que eu digo. Era preciso ter coluna vertebral erecta. SL

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