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Luís Teves 22/04/2020 - Pau que nasce torto...


A transferência de Rúben Amorim para o Sporting Clube de Portugal tem sido tema dos mais variados debates e comentários, não só pelo avultado montante envolvido mas também por se tratar de um treinador sem habilitações, e sem provas dadas. Nunca na história do futebol mundial, um clube pagou 10 milhões de euros por um treinador com apenas uma mão cheia de jogos numa liga profissional. Isto talvez porque nunca na história do futebol, um clube com a dimensão do Sporting, foi presidido por um “mestre de todas as artes” como Frederico Varandas.

Esta contratação é, de facto, um caso singular mas não apenas pelas razões acima referidas. Todos os contornos deste acordo parecem estar envolvidos por um manto, urdido do bizarro entrelaçado com a intrujice. O Jornal de Notícias publicou, a 5 de Março, uma peça onde descreveu a reação de António Salvador á abordagem do Sporting para contratar o então técnico do SC Braga. Segundo aquele periódico, António Salvador referiu ter dito a Rúben Amorim que “...não queria que saísse e que pretendia até renovar-lhe o contrato com aumento salarial, pelo que não aceitava qualquer negociação com o Sporting. No entanto, disse-lhe que se ele quisesse ir, a única solução era o Sporting pagar a cláusula que estava estipulada no contrato.”. Se fosse este realmente o caso, nada havia que obrigasse António Salvador a negociar qualquer acordo para a saída do seu treinador.


O contrato de Rúben Amorim estava em vigor e se Salvador assim exigisse, ao Sporting não restava qualquer alternativa que não fosse pagar os 10 milhões de euros na hora, e na totalidade, para contratar o técnico. Se tal não aconteceu foi porque Salvador aceitou, e se o fez foi porque tinha algum interesse na concretização do negócio, mais não fosse garantir um substancial encaixe financeiro na venda de um activo que esteve ao serviço do seu clube um par de meses apenas. Neste sentido, acho que a sua afirmação de que “…é uma frustração preparar treinadores para a concorrência"; foi um mero argumento apelativo e emocional, para consumo interno dos adeptos bracarenses. António Salvador viu, claramente, uma oportunidade única de concretizar um venda muito vantajosa de um treinador que nada tinha provado e cujo desempenho, e resultados obtidos, dificilmente seriam sustidos.

Na tarde do mesmo dia, e já dois dias depois de Silas ter anunciado quem seria o seu sucessor, em mais um episódio inadequado a um clube da grandeza do Sporting, Frederico Varandas fez a apresentação oficial de Rúben Amorim em frente ao mais emblemático pórtico de Alvalade, a Porta 10A. Foi mais um evento desolador e doloroso de presenciar, com um timbre deprimente onde só terá faltado uma marcha fúnebre como música de fundo. Mais uma vez o Dr. Varandas não desiludiu, e não se encolheu nas habituais parvoíces tão características das suas intervenções, mesmo as mais bem ensaiadas.


Pela quarta vez em oito meses, Varandas anunciou um novo projecto com um novo líder ideal, por ele escolhido. Mais uma vez, foi impingida aos sportinguistas, a ideia do “agora é que vai ser”, e mais uma vez, um presidente sem competência, sem rumo e sem estratégia, utilizou o mesmo meio para desviar as atenções das suas insuficiências e dos seus fracassos. Pelo meio, foram entoadas as tradicionais baboseiras, na forma de expressões pré-fabricadas como “o caro pode sair barato” ou “esta operação não é um all-in financeiro”. Só que desta vez fê-lo na véspera da data de pagamento da primeira prestação ao Braga. Uma vez que que nada de anormal aconteceu entre os dias 5 e 6 de Março, só posso concluir que, no acto de apresentação oficial de Rúben Amorim, Frederico Varandas tinha plena consciência que o Sporting não iria efectuar o pagamento, devido ao Braga, no dia seguinte.


Não pode haver outra explicação que não seja a que o Dr. Varandas agiu de má-fé, com um comportamento mais que censurável, indigno até, e que desilustra a imagem e reputação do Sporting Clube de Portugal. Não me lembro de uma conduta tão repugnante desde os tempos do detestável Vale e Azevedo.
































A 16 de Abril, Salgado Zenha, administrador financeiro da Sporting SAD, confirmou notícias que o Sporting não tinha pago a primeira prestação da verba da transferência ao SC Braga. E mais, disse que esta resolução não teria sido motivada por necessidades de tesouraria mas, simplesmente, fruto de uma decisão de gestão, sustentando a mesma nas dificuldades financeiras acrescidas devido às circunstâncias especiais resultantes da pandemia do Covid19.


Só que o Sr. Zenha se esqueceu que a data de pagamento da primeira prestação era no dia 6 de Março e o estado de emergência em Portugal só foi decretado a 18 de Março, ou seja, passados 12 dias após a data do primeiro pagamento. O gestor, ainda assegurou que antes da pandemia, estava tudo em dia e garantiu que o Sporting não pagará juros de mora, mas pagará apenas os “dez milhões de euros e nem mais um cêntimo”. Por fim, Salgado Zenha tranquilizou os sportinguistas quanto ao fair play financeiro argumentando que “…o fecho da janela é a 31 de Março, só tem em conta os pagamentos e contratos feitos até 31 de Dezembro. Logo de base, nenhum pagamento que fosse feito este ano entraria para o fair play financeiro”. Esta tomada de atitude dos dirigentes do Sporting, e a sua justificação maltrapilha, deixa-me envergonhado porque tresanda a “chico-espertice”, a desculpa de mau pagador, e a artimanha baixa e desasseada.


Uma direcção de gente honesta, de boa-fé, e sem a arrogância que caracteriza os actuais dirigentes do Sporting, teria contactado os seus homólogos bracarenses no intuito de justificar o atraso no pagamento e, porventura, tentar estabelecer um acordo para a reestruturação do acordo. Nada disto foi feito e no entanto, vários ex-dirigentes, juízes, e até ex-ministros, aprovaram e apoiaram esta conduta e procedimento, embora a cronologia das ocorrências não corrobore as justificações apresentadas pelo Conselho Directivo. Longe vão os dias em que as figuras de relevo do país se distanciavam de tudo aquilo que “cheirasse” a impróprio, escandaloso, desonesto ou imoral. Hoje não sentem o menor embaraço ao chafurdar na porcaria. O que em tempos não muito longínquos, teria sido considerado um “all-in”, passou a ser designado por “risco calculado”. Algo me diz que, quando toda esta poeira assentar, este acabará por se revelar um “negócio da China” para muitos dos intervenientes. O dinheiro é remédio santo para muitas doenças, e acredito que não há pau nascido torto, que não se consiga endireitar com uns milhões de euros. Pelo meio alguns dos parceiros envolvidos neste fétido acordo ficarão com os bolsos bem mais recheados. O Sporting, este pagará a factura como já é hábito.

Saudações leoninas e até para a semana,



Luís Teves

22/04/2020




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