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Luís Teves 15/04/2020 - Sonhos e exemplos



Nesta altura de crise, de pandemia mundial, parece-me oportuno fazer uma reflexão sobre o absurdo da veneração exagerada aos atletas de futebol. Portugal é um país que gosta de futebol, talvez em demasia, mas actualmente vive-se numa era em que as estrelas do futebol- e as celebridades em geral- são tratados como uma espécie de elite cultural. Chegámos ao ponto de dar mais importância aos futebolistas, do que aos reais heróis. Nada tenho contra futebolistas mas acho que a nossa admiração por eles devia ser mais moderada e, quiçá, durar apenas enquanto estão a actuar no terreno de jogo.

O famoso basquetebolista norte-americano Charles Barkley, disse numa entrevista em 2013: “há milhares de gente na cadeia que sabem fazer um afundanço. Acham que só por isso são bons exemplos? ”. Temos que reconhecer que futebolistas não são pagos para serem exemplos de bom comportamento ou de boa cidadania. São pagos, e bem pagos, para contribuir, com o seu talento, para que os clubes ganhem títulos e obtenham lucros.


Bem cedo nas suas vidas, futebolistas de eleição são condicionados a acreditar que, no sentido Darwinista, são seres superiores. Agentes sem escrúpulos mimam-lhes emocionalmente, oferecem-lhes dinheiro, e prometem-lhes mundos e fundos.


Em muitos casos, quando estes atletas alcançam o estrelato, acreditam que que estão acima das regras de decoro social e, de forma quase natural, cedem aos seus impulsos e deixam-se intoxicar pela sua vaidade pessoal. Este processo é muitas vezes exacerbado pelos clubes que repetidamente recorrem de castigos justos aplicados a jogadores por conduta violenta ou antidesportiva, simplesmente porque não querem ficar privados dos seus serviços. Isto já para não citar casos, como no Sporting, em que atletas que rescindem com o seu clube são recompensados com aumentos salariais ou até com a braçadeira de capitão.

O facto é que os mais jovens crescem com a falsa noção de que futebolistas representam o pináculo dos seus ideais e nem as imagens de um jogador a agredir um colega de profissão, ou a partir as portas de um balneário ao pontapé são suficientes para os dissuadir. Aquele sonho de ver a sua imagem, na persona do herói, transmitida por todo o mundo é tão forte como é improvável. Não estará na hora de deixar de fingir que existe uma correlação directa entre a capacidade atlética de um homem e a sua fortaleza moral? Não será tempo de ensinar aos nossos filhos que atletas são simplesmente seres humanos como todos nós?

Parte do problema reside na dificuldade que existe em obter uma definição exacta e consistente do que um “role model” é, ou devia ser. Há quem defenda que os nossos filhos estão rodeados por verdadeiros heróis como os bombeiros, os professores, os líderes das comunidades, os médicos e até os seus próprios familiares.


Em muitos caso isto é inegável. Mas também não deixa de ser verdade que decerto existem professores que abusam de crianças, bombeiros que agridem as esposas e até médicos que se servem de uma situação de pandemia para vaidosa e vergonhosamente, promoverem a sua imagem.


Por mim, acho que seria mais salutar educar os nossos filhos de forma a que eles admirem, e tentem emular, as pessoas não pelas sua profissão, não pela sua fama, ou pela sua conta bancária mas pelo seu carácter, pelos seus valores pelos seus actos e, principalmente, por aquilo que eles dão de si aos outros sem nada esperar em troca.



Luís Teves

15/04/2020


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