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Luís Teves 06/05/2020 - CAPITÃO COM DEVOÇÃO



Não é sobre aquela variedade vulgar de capitão-coragem, forjado nas escolas do exército, que ouve relatos do Sporting no meio do deserto de Kandahar que me proponho hoje escrever. Desta estirpe de capitão já temos um em demasia no clube e, francamente, estaríamos indubitavelmente melhor sem ele. Quero debruçar-me um pouco sobre aquele capitão íntegro, nobre, moldado na linhagem de grandes capitães do passado que há muitos anos não ostenta a braçadeira na equipa do Sporting.

Isto porque li, há dias, que Frederico Varandas tem um sonho de fazer voltar ao Sporting um grupo de jogadores formados no clube, numa estratégia de incrementar a mística leonina, Entre os vários nomes mencionados encontra-se Adrien Silva que está actualmente a actuar no AS Mónaco FC. Destaco o nome de Adrien simplesmente porque foi capitão da equipa de futebol profissional do Sporting Clube de Portugal e, em tempos não muito longínquos, foi protagonista de alguns casos que, a meu ver, em nada beneficiaram o clube e muitos menos o que poderia ter sido o seu legado como atleta do Sporting.

Há algum tempo, publiquei numa rede social, a minha opinião de que, se um capitão de equipa do Sporting forçar publicamente a sua saída do clube, deve sair ou, se ficar, tem de lhe ser retirada a braçadeira em definitivo. Disse-o então e mantenho agora! Ser nomeado capitão de qualquer equipa do Sporting é uma honra, da qual advém uma profunda responsabilidade que deve ser cumprida, e exercida, com orgulho, dignidade, altruísmo e humildade . A posição de capitão deve ser atribuída a atletas que merecem o respeito e confiança dos seus colegas e que saibam liderar o grupo no rumo certo. Um capitão deve saber manter o controlo em situações de alta pressão e ser um modelo de excelência no seio do grupo. Ser capitão do Sporting deve ser tido, e sentido, como um dos maiores sucessos e privilégios na carreira de um atleta do clube.

Um capitão deve ser alguém que está totalmente comprometido com o clube e que coloca o sucesso do grupo à frente dos seus interesses pessoais. Um verdadeiro capitão respeita os seus colegas e reconhece o contributo de todos. Um capitão a sério, sabe resolver os problemas em privado, dentro do balneário, e sabe como travar rumores e boatos, vindos do exterior, que podem minar a coesão do grupo.

Um capitão do Sporting deve ser um homem corajoso, que não vira a cara à luta e que personifica os valores do clube: o esforço, a dedicação e a devoção. Ele deve ser consistente, ser aquele padrão de quem se esforça a cem por cento em cada treino, em cada jogo. Um capitão deve ser aquele que inspira todos à sua volta, que lidera através do exemplo e que sabe ser um eficaz elo de ligação entre jogadores e equipa técnica e administração.

Muitos são os casos em que, no Sporting, capitães tem desbaratado esta extraordinária distinção porque não estão verdadeiramente comprometidos com o clube e privilegiam os seus interesses acima dos interesses da colectividade. De facto, parece-me que em variadas situações muitos têm sido seleccionados capitães no Sporting pela sua popularidade entre os seus pares, ou no seio dos sócios e adeptos, e não pelas suas qualidades de liderança, pelo seu carácter ou principalmente pela sua entrega e comprometimento com o clube.

Para ser honesto, não me lembro do último capitão da equipa de futebol do Sporting Clube de Portugal que tenha sido verdadeiramente digno de tão distinto privilégio. Antes pelo contrário. Nos últimos anos foram capitães Bruno Fernandes, Rui Patrício, William Carvalho e Adrien Silva. Todos eles têm a particularidade de terem, de vários modos, forçado a sua saída do clube pouco depois de terem assinado contratos com revisões salariais bastante vantajosas. Três deles, decidiram rescindir unilateralmente com o clube após os incidentes de Alcochete, quando, na sua condição de líderes, tudo deviam ter feito para evitar aquela espécie de insurreição contra a autoridade legítima e devidamente constituída no clube. Isto já depois de Rui Patrício ter exercido a sua influência no grupo de trabalho para, imagine-se, rejeitar um prémio de €500,000 oferecido, por duas vezes, pela direcção para ganharem os últimos dois jogos da época de 2017-2018.


Mais atrás lembro-me dos “reinados” de João Moutinho e Pedro Barbosa na capitania de equipa. Um forçou a saída, inclusivamente recusando-se a treinar, e abandonou o clube da forma que todos sabemos; o outro, entre diversas coisas que nunca foram bem explicadas passadas no intervalo do jogo da final da Taça UEFA, parecia correr mais nos últimos anos de cada contrato. Esta falta de critério na escolha de capitães, também está na origem da falta de sucessos desportivos no Sporting nas últimas décadas. Neste prisma, vejo este sonho de Varandas em trazer Adrien de novo ao clube como mais um erro colossal entre muitos outros que ele tem cometido. Não me parece que Frederico Varandas tenha a menor noção do que deve ser um capitão de equipa quando coloca um mural na Academia onde Rui Patrício é apontado como um jogador que “lidera pelo exemplo”. Estamos a falar do mesmo Rui Patrício que foi o primeiro jogador a apresentar a carta de rescisão após o ataque de Alcochete.


Frederico Varandas não tem a mínima ideia do que é ser um capitão exemplar quando convida William Carvalho, um jogador que rescindiu com o clube, (e que afirmou que os sócios não tem importância nenhuma) para ver um jogo no camarote VIP de Alvalade. Varandas demonstrou que não sabe o que é “liderar pelo exemplo” quando contratou um ex-jogador do Sporting que afirmou estar preparado para ficar dois anos sem jogar para poder sair a custo zero. Agora pretende trazer mais um que, enquanto capitão, tudo fez para sair mas que agora diz querer voltar, talvez porque as coisas não lhe estão a correr de feição no estrangeiro.

O Sporting não pode continuar a a ser um clube sem exigência e sem auto-estima. Não podemos continuar a dar como exemplos aos atletas mais jovens, jogadores que traíram e desrespeitaram o clube e os seus sócios. Não podemos premiar gente que nunca mereceu ostentar a braçadeira de capitão do Sporting Clube de Portugal com convites para os camarotes ou com fotos nas paredes da Academia.


Não podemos, nem devemos, concordar com ninguém que se proponha a trazer de volta jogadores que desconsideraram o clube no passado. Não podemos continuar a entregar a braçadeira a um qualquer “capitão-rescisão” ou “ capitão-deserção” como temos feito vezes sem conta. Há que defender os interesses do clube fazendo escolhas e decisões mais criteriosas e acertadas. Nada mais importante do que saber escolher para capitão de equipa alguém que tenha orgulho e respeito pela história do Sporting e pela sua massa associativa. Um capitão que esteja comprometido e que seja conhecedor das suas responsabilidades terá muito mais hipóteses de conseguir inspirar quem está à sua volta, fazê-los sonhar mais alto e motiva-los a fazer sempre mais e melhor em prol do Sporting Clube de Portugal.


Sem isto pouco ou nada se consegue, como todos nós bem sabemos, mas há quem teime em cometer os mesmos erros do passado.



Luís Teves

06/05/2020


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