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Luís Teves 03/06/2021 - HELLO CNN-PORTUGAL



Li há dias no Público online que a TVI24 vai dar lugar à CNN Portugal e que deverá estar no ar a partir do último trimestre de 2021. Segundo o presidente da Media Capital, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social já foi informada estando dependente da autorização da ERC para que o rebranding da TVI24 avance uma vez que “faz parte do contrato com a CNN”.


Admito que esta foi uma notícia que me despertou um forte interesse pois aguardo com enorme expectativa verificar como uma empresa de comunicação social americana se irá integrar no panorama dos media em Portugal e que influência, a médio e longo prazo, a CNN terá no modus operandi dos media portugueses. A CNN teve as suas origens em 1980 nos Estados Unidos como um canal de notícias de 24 horas , e desde então expandiu a sua presença a nível global, constituindo hoje uma grande multinacional com audiências em mais de 200 países e territórios. Apesar de ser alvo de criticismo pela direita política dos EUA, a CNN é geralmente reconhecida pela integridade da informação que apresenta nos seus programas informativos e pelo respeito e fidelidade que os seus jornalistas demonstram pelo Código de Ética defendido pela sua associação profissional: a Society of Professional Journalists.


Estou ansioso por descobrir se Portugal terá uma CNN que assumirá a responsabilidade pela fiabilidade e correção do seu trabalho. Espero que este novo canal saiba procurar aqueles sobre quem fazem cobertura noticiosa para lhes permitir responder a críticas ou alegadas irregularidades. Espero que a CNN Portugal seja um canal vigilante e com coragem para responsabilizar aqueles que detêm o poder sempre que necessário, dando assim voz a quem não tem voz. Desejo ver uma CNN que reconheça a sua obrigação de agir como watchdog dos assuntos públicos e que assegure que esses assuntos sejam discutidos abertamente. Anseio por uma CNN onde os seus profissionais saibam recusar presentes, favores, viagens gratuitas e tratamento especial, e evitar actividades que possam comprometer a integridade ou a imparcialidade do seu trabalho. Pretendo ver um canal que saiba negar tratamento especial a anunciantes, doadores ou quaisquer outros interesses, e resistir à pressão interna e externa para influenciar ou inclinar a cobertura noticiosa. Gostaria de ver uma CNN que saiba equilibrar o direito que um suspeito tem a um julgamento justo com o direito que o público tem à informação e que saiba considerar as implicações de identificar suspeitos de crimes antes destes enfrentarem acusações legais.


Portugal merece mais do que uma comunicação social que "não deixa que a verdade estrague uma boa historia”. Os portugueses tem direito à informação que não seja corrompida ou adulterada para aumentar vendas e audiências. O cidadão comum tem o direito de não ser enxovalhado ou ver a sua reputação, caráter e honra assassinados publicamente, e sem provas, por jornais e canais de televisão que se vendem a certos interesses políticos e financeiros. Os portugueses merecem programação televisiva isenta e imparcial em vez de programas que são apresentados como sendo noticiosos mas que nada mais são do que espaços de difusão de mentiras apresentados por cartilheiros ao serviço de certas organizações sem qualquer direito ao contraditório. Os portugueses merecem mais do que jornalistas que aceitam fazer a defesa cega e elogio infundado de certas personalidades porque estas tiveram influência na sua seleção para receber um "prémio de jornalismo”. A primeira obrigação do jornalismo é para com a verdade mas em Portugal, salvo raras excepções, a verdade constitui um empecilho no caminho dos interesses, do compadrio, do enriquecimento ilícito, da exploração dos pobres e da corrupção. Por isso a verdade é escondida aos portugueses. 


Mário Ferreira, presidente do Conselho de Administração da Media Capital afirmou que o acordo com a CNN “…traz desde já um reforço daquilo que são os valores em que acreditamos, traz também, não só para a Media Capital, mas para Portugal e para os profissionais que aqui trabalham, uma valorização porque nós vamos ter aqui uma janela aberta para o mundo…” e acrescentou que “Queremos mandar uma mensagem que queremos reforçar a credibilidade, reforçar a qualidade, queremos reforçar a independência, queremos reforçar uma imagem de que queremos cobrir o Portugal, queremos criar um canal de televisão que, embora tenha marca forte a nível mundial, possamos criar para os portugueses a possibilidade que se houver uma catástrofe durante a noite, ligue a televisão ou vá ligar a CNN Portugal porque sabe que nós teremos lá alguém”.


Esta é sem dúvida uma mensagem arrojada e ambiciosa. Mário Ferreira diz pretender um canal com credibilidade, qualidade, independência e transparência. Mas não basta que os portugueses liguem a CNN Portugal porque eles têm lá alguém. A CNN Portugal terá de ter sempre lá alguém que seja competente, isento, responsável, íntegro, corajoso, persistente, honesto, objectivo e eticamente irrepreensível. Para isso terá de tomar muitas decisões importantes a nível nacional. Terá lugar neste novo canal um comentador residente como Rogério Alves que apesar de proclamar na televisão defender a verdade e a justiça apela a Ferro Rodrigues para não permitir que Rui Pinto vá ao Parlamento expor aquilo que sabe sobre a corrupção em Portugal. A CNN continuará a permitir a um advogado que apesar de desrespeitar os estatutos do clube onde exerce funções como dirigente, e de desrespeitar os direitos dos seus consócios, a hipocrisia de fazer palestras nos seus programas sobre os direitos dos cidadãos em democracia? A nova CNN Portugal continuará a dar tempo de antena a um pseudo-jornalista como Rui Pedro Braz que comprovadamente utiliza o seu programa para disseminar a cartilha de um clube de futebol sob o disfarce de ser a sua opinião pessoal? A CNN Portugal continuará a consentir que o mesmo senhor se sirva dos seus écrans para prosseguir a sua épica e obscena vendeta sobre um cidadão de seu nome Bruno de Carvalho? O referido “jornalista” vai continuar a enganar os portugueses com falsas informações sobre transferências de futebolistas ou resultados de gestão desportiva? Se gente desta laia continuar lá nos estúdios valerá mais a pena rasgar o contrato com a CNN e continuar como TVI24 pois esta também sempre tem lá alguém, só que é sempre alguém que não vale um chavo.



Luís Teves

03/06/2021


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