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Luís Paulo Rodrigues 28/05/2020 - O sportinguismo que vem da infância



Sou muito diferente de Luís Filipe Vieira. É por isso que abomino o seu namoro com Varandas. Ao contrário de Vieira, não me tornei sportinguista, benfiquista e portista ao mesmo tempo, inscrevendo-me como sócio de todos, para ver se um dia mais tarde iria ganhar alguma coisa num deles.


Sou do Sporting Clube de Portugal desde criança, desde que tenho memórias. Desde o tempo em que o futebol se jogava aos domingos à tarde e nós, que morávamos longe de Lisboa, ficávamos colados ao rádio a ouvir as emoções que nos eram transmitidas por vozes de nomes como Romeu Correia, Fernando Correia, Orlando Dias Agudo, Ribeiro Cristóvão, Alves dos Santos e outros.


Era o tempo em que os laterais avançavam pelo campo como se fossem extremos e nós testemunhávamos cada lance com os ouvidos.


Era o tempo em que os estádios enchiam, fizesse chuva ou fizesse sol.


Era o tempo em que os protagonistas eram os jogadores e não os dirigentes ou os comentadores da cartilha.


Os resumos dos jogos passavam na televisão única aos domingos à noite, a horas certas e sem intermináveis "programas de publicidade" pelo meio.




Os jornais "A Bola" e "Record", ainda a preto, branco e vermelho, publicavam-se duas ou três vezes por semana, e chegavam a meio da tarde ao quiosque da minha terra, Vila Nova de Famalicão, para serem consumidos num ápice por magotes de leitores ávidos de informação sobre os seus ídolos.


Os equipamentos dos jogadores titulares eram numerados de 1 a 11. E os dos suplentes eram numerados de 12 a 16.


Na imprensa, uma entrevista exclusiva era mesmo uma entrevista exclusiva. E não como hoje, que é exclusiva e sai em todos os jornais ao mesmo tempo.


O símbolo do clube era a única marca bem visível nas camisolas dos jogadores.


Sporting, Benfica e FC Porto arrastavam grandes multidões, enchendo os campos e os estádios do País e provocando um clima de festa em cada vila ou cidade onde jogassem.


Havia um dia a meio da semana para a realização dos jogos das competições da UEFA, que validava a expressão "Quarta-feira Europeia".


Uma equipa só usava o equipamento alternativo quando recebia em sua casa um adversário cujo equipamento oficial fosse da mesma cor ou parecido.


Os cromos eram vendidos como embrulhos de pastilhas elásticas...


Foi nos tempos de criança da escola primária que comecei a ouvir relatos de golos de jogadores talentosos como Eusébio, Chico Gordo, Jacinto João, Vítor Baptista, Nené, Fernando Gomes, Cubillas, Seninho...




Porém, só conseguia vibrar com os relatos das portentosas defesas de Vítor Damas ou Ferenc Meszaros, com os eficazes e oportunos cortes e desarmes de Laranjeira ou Eurico, com a espetacular fantasia de Fraguito, e com os golos de Hector Yazalde, de Marinho, de Manoel, de Keita, de Manuel Fernandes, de Rui Jordão. Os golos do Sporting Clube de Portugal, claro. E não sei por que motivo. O SCP nem sequer ganhava todos os anos. Só que um amor não se explica. Sente-se e vive-se.


Um amor que começou na década de setenta do século passado, quando os títulos nacionais começavam a escassear no SCP, que atravessou intacto o jejum entre 1974 e 1980 e o então período mais longo da história do clube sem vencer campeonatos, que durou entre 1982 e 2000 – um jejum recorde na história centenária do clube, agora ultrapassado por este desastre chamado Varandas.


Foi este sportinguismo iniciado na infância que me motivou a escrever sobre o Sporting Clube de Portugal, no blogue LEÃO DA ESTRELA, que criei em 2006. E foi a escrever sobre o Sporting que conheci Bruno de Carvalho, ainda antes da sua presidência de cinco anos


Durante grande parte desse tempo, fui um sportinguista relativamente distante do quotidiano em Alvalade – morei no Brasil entre 2012 e 2017 –, mas um sportinguista tranquilo em relação às suas decisões estratégicas de engrandecimento do Sporting Clube de Portugal. Porque tinha a certeza que as suas decisões tinham o objetivo mestre de tornar o clube mais forte.


Por isso, num dos momentos mais difíceis da vida do então ex-Presidente do SCP, num período em que estar ao seu lado era fator de exclusão social, aceitei, sem medo, a possibilidade de integrar a sua candidatura, na lista para o Conselho Diretivo, a qual não chegou a concretizar-se, por impedimento da justiça leonina, que de forma precipitada e trapalhona, preferiu seguir a cartilha da CMTV, do “Correio da Manhã” e da procuradora Cândida Vilar, condenando Bruno de Carvalho à destituição da presidência e à expulsão de sócio do clube que ajudou a tornar mais forte, mais competitivo e mais independente.


Mesmo assim, acompanhei Bruno de Carvalho em algumas ações de campanha no Norte do país: em Vila Nova de Gaia, em Felgueiras, em Vila Nova de Famalicão, em Viana do Castelo, em Barcelos. E enquanto os taberneiros do comentário debitavam atoardas sem contraditório nas televisões, testemunhei o enorme entusiasmo do povo leonino e o carinho que todos nutriam pelo presidente que “levantou o clube” em 2013, mesmo sem saberem se ele poderia ou não ser candidato. Como sabemos, foi impedido de ser candidato.


Em abril deste ano, aceitei com honra e prazer participar com os meus artigos de opinião no seu site, um espaço de informação que é, também, um símbolo da sua resistência e da sua resiliência – qualidades que só conseguimos vislumbrar nos grandes campeões.


Deu-me total liberdade para escrever sobre aquilo que entendesse. Naturalmente, nos dois meses de participação, acabei por escrever sempre sobre o SCP. Porque neste espaço respira-se sportinguismo. Daí a minha visão constante da vida leonina, com o esforço, a dedicação, a devoção e a glória de um sportinguista.



Infelizmente, nos tempos que correm, não é fácil escrever sobre o SCP. Porque defender o SCP implica dizer “não” ou criticar a uma série de atitudes, decisões e comportamentos. Por várias razões, que agora, lamentavelmente, estão à vista de todos.


Prometeram unir o SCP e trabalham todos os dias pela sua divisão.


Prometeram contas certas e aumentaram as dívidas a fornecedores e o passivo de forma vertiginosa.


Prometeram títulos no futebol e nas modalidades e desfizeram as equipas e a competitividade.


Prometeram rigor e pagam o terceiro valor mais alto do mundo por um treinador sem diploma.


Prometeram o fim da chacota e oferecem-nos uma aliança com o Benfica.


Os factos são muitos e irrefutáveis. Em 2018, eu não me atreveria a prever um cenário tão funesto.


Por isso, e também por Bruno de Carvalho – que, a partir de agora, ilibado pela justiça no caso de Alcochete, merece voltar a ter o seu lugar no clube que ama –, considero que esta plataforma de conteúdos leoninos (e não só, pois há colaboradores que simpatizam com outros clubes) não deve acabar e anuncio a minha disponibilidade para continuar a escrever todas as semanas.


Obrigado a Bruno de Carvalho por esta oportunidade!


E viva o Sporting Clube de Portugal!...



Luís Paulo Rodrigues

28/05/2020


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