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  • Opinião com Assinatura

Luís Paulo Rodrigues 23/04/2020 - A pesada herança do capitão Varandas


Com o futebol parado, por causa do surto da covid-19, e os clubes crentes num regresso em breve à competição para terminar o que falta da temporada 2019-2020 e iniciar imediatamente a temporada seguinte – isto se tudo corresponder às expectativas mais otimistas –, talvez seja adequado fazer um primeiro balanço à prestação do futebol do Sporting Clube de Portugal numa temporada marcada por maus resultados e pela instabilidade do projeto futebolístico, que só este ano conheceu quatro treinadores. O balanço é, obviamente, muito negativo. E não havia nenhum obstáculo para que o Presidente Frederico Varandas e a sua equipa de dirigentes e assessores fizessem muito melhor, como, aliás, prometeram aos sócios e adeptos. O mau futebol e os maus resultados desta temporada tiveram origem no desmantelamento da equipa de futebol iniciado ainda durante 2018-2019, nomeadamente com as saídas a custo zero de Fredy Montero e Nani, e nas dúvidas e indecisões que assaltaram o grupo de trabalho sportinguista no último Verão. O desmantelamento contínuo do plantel teve quase sempre um motivo maior: era preciso poupar na despesa com os jogadores porque o futebol leonino estaria a viver acima das suas possibilidades. Enquanto essa retórica foi distribuída e aceite pela imprensa – com os portistas e, sobretudo, os benfiquistas a assistirem no camarote… –, o Sporting viu entrarem nos cofres da SAD mais de duas centenas de milhões de euros, a maioria desse dinheiro resultante da venda de jogadores. Não é propósito deste texto fazer uma análise exaustiva às contas da SAD, mas não consta que tivessem sido encontrados em Alvalade os buracos financeiros que certa imprensa terrorista tanto ventilou e que a célebre auditoria não detetou, depois de ter sido vasculhada a gestão anterior a 23 de junho de 2018. Varandas ainda propalou uma verba de 40 milhões de euros em dívidas a fornecedores, mas o buraco era forçado, dado que decorria da dinâmica da própria gestão de uma organização com as características de uma sociedade que gere um clube de futebol. Basta dar um exemplo: só com a contratação do ex-jogador Rúben Amorim para treinador principal do SCP, as dívidas a fornecedores da SAD já subiram 14 milhões de euros. Concentremo-nos na equipa de futebol. A temporada 2019-2020 deve ficar bem registada na memória de todos como um exemplo a não seguir. Tendo vencido a Taça da Liga e a Taça de Portugal, o Sporting tinha feito em 2018-2019 a tal “melhor temporada dos últimos 17 anos”, como exaltava a propaganda de Frederico Varandas, um ano depois da invasão a Alcochete, demonstrando que as sequelas do ataque à Academia leonina tinham, afinal, sido dissipadas. Mas o pior veio a seguir. Durante o último defeso e até ao fecho do mercado só se falava em vender Bruno Fernandes. O SCP estava totalmente dependente da sua estrela, o jogador mais rentável, não assumindo uma atitude proativa no mercado. Como Bruno Fernandes não foi vendido por incapacidade do SCP no mercado, Varandas decidiu vender Bas Dost ao desbarato, e ainda Thierry Correia e Raphinha. A temporada já tinha começado, e mal, com o Sporting cilindrado pelo Benfica (5-0, na Supertaça) e o treinador holandês Marcel Keizer, o tal da “melhor temporada dos últimos 17 anos”, era posto de lado nas decisões sobre compras e vendas. Um treinador que Varandas, meses antes, tinha escolhido para o seu alegado projeto de um Sporting campeão “também no futebol”. Foi neste contexto que, em setembro de 2019, chegaram a Alvalade três jogadores por atacado – Fernando, Jesé Rodriguez e Yannick Bolasie –, completamente desfasados do projeto leonino, que acabaram por ficar mais caros do que aquilo que o SCP pagava a Bas Dost, dado que ganhavam bem e não jogavam ou, quando jogavam, nada acrescentavam que tivesse justificado a sua contratação. Estes jogadores foram contratados por empréstimo, à última hora, naquela que foi a primeira temporada preparada com tempo pela gestão de Varandas. Estavam dadas, assim, todas as indicações sobre aquilo que seria a temporada. Porque, como diz o povo, o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita. Os resultados destas compras por atacado são conhecidos e os três jogadores acabaram por ser devolvidos à procedência antes de terminarem os seus contratos. O brasileiro Fernando, sobre o qual o capitão Varandas teceu os maiores elogios, chegou a Alvalade descompensado fisicamente e nunca jogou na equipa principal. Jesé Rodriguez está na fase em que é melhor a animar o balneário com as suas cantigas do que a marcar golos nos estádios. E quanto a Bolasie, sinceramente, o SCP tinha nos seus quadros jogadores emprestados que são melhores e mais baratos. Além disso, há outra ideia a reter: Varandas é um presidente que não consegue valorizar os jogadores que contrata. Todas as vendas que fez até hoje foram de jogadores que já pertenciam ao SCP antes de chegar à presidência. A verdade é que chegamos aqui e temos uma equipa muito menos valiosa, muito menos competitiva, sem cultura de vitória, sem espírito de campeã. Não admira, por isso, que o SCP já tenha sido ultrapassada pelo Sporting de Braga, que é o terceiro classificado na Liga Portuguesa.

Os maus resultados desportivos e o desmantelamento do plantel com a consequente desvalorização da equipa – que é hoje um grupo de jogadores sem identidade e sem objetivos claros por que lutar – são aquilo que eu classifico como a pesada herança do capitão Varandas. A verdade é que a temporada 2019-2020 começou mal e nunca se endireitou, como demonstraram o intempestivo despedimento de Marcel Keizer, a contratação errática de Leonel Pontes, a aposta pífia em Jorge Silas e, finalmente, o assalto desesperado e arriscado ao ex-jogador Rúben Amorim, o terceiro treinador mais caro do mundo, mesmo sem estar habilitado para dirigir a equipa, contratado por um clube que há escassos meses deixava sair o seu melhor avançado para poupar nos salários. Isto é tudo menos uma gestão competente e profissional. E não sei como é que há sportinguistas que conseguem compreender, desculpabilizar e suportar este estado de coisas.


Luís Paulo Rodrigues

23/04/2020


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