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Luís Paulo Rodrigues 16/07/2020 - Os treinadores de Varandas e o regresso da instabilidade




"Um treinador deve ser avaliado por quatro parâmetros: competência técnica e tática, liderança, gestão do grupo e comunicação. A nossa equipa entende que Marcel Keizer é o homem que tem o melhor perfil para agarrar este projeto.”

Frederico Varandas, sobre a contratação de Marcel Keizer como treinador do SCP, 12 de novembro de 2018


“É um grande treinador, um grande senhor (…). O sucesso que está a ter como nosso timoneiro vem da estrutura do Sporting. No dia em que ele der uma entrevista, jamais esquecerá esta equipa à volta dele. Beto e Hugo Viana têm feito um trabalho fantástico, discretos, a trabalhar. De um profissionalismo e competência fantásticos.”

Frederico Varandas, sobre Marcel Keizer, 17 de dezembro de 2018


“Sentimos que a própria confiança de Keizer desceu e isso sentia-se no grupo. A sensação que tínhamos era de que o Sporting tanto podia fazer um grande jogo como um jogo muito mau."

Frederico Varandas, sobre o despedimento de Marcel Keizer, 4 de setembro de 2019




"Não tem prazos, tem uma tarefa. Estaremos com ele para observar aquilo que tivermos de observar. Não foi escolhido para ser treinador dos sub-23 por acaso. Tem muitos anos de Sporting, conhece a realidade do futebol português e hoje tem a perfeita noção do que se passa no clube."

Frederico Varandas, sobre a contratação de Leonel Pontes como treinador do SCP, 4 de setembro de 2019


"Uma palavra especial para o mister Leonel Pontes, que assumiu de uma forma transitória a equipa técnica e fê-lo com grande profissionalismo, dignidade e com todas as dificuldades fez o melhor que conseguia."

Frederico Varandas, sobre o despedimento de Leonel Pontes, 27 de setembro de 2019




"Quero reforçar que nós, apesar de frustrados, temos muita confiança que será esta equipa técnica a pôr o Sporting no lugar correspondente à valia do grupo."

Frederico Varandas, sobre a contratação de Jorge Silas, 27 de setembro de 2019




“Esta operação não compromete as finanças do clube. Há sim uma mudança de paradigma. O orçamento para a próxima época foi decidido há meses e a contratação de Amorim não altera um cêntimo, muda sim a alocação dessas verbas. Amorim vai potenciar e criar valor. Acreditamos que o treinador certo num ano valoriza um plantel em 30 M€. Às vezes o que é aparentemente caro sai barato e o nosso critério foi a competência. (…) Amorim, dentro de poucos anos, será demasiado grande para o futebol português. (…) Amorim é o treinador do nosso projeto, muito por estar alinhado na nossa visão para o futebol: apoiada na formação e sem medo de potenciar jogadores. (…) Contratamos um grande treinador, mas não um milagreiro. Hoje arranca a época 2020-2021 para o Sporting.”

Frederico Varandas, sobre a contratação de Rúben Amorim, por 10 milhões de euros (verba, entretanto, fixada em 14 milhões, incluindo impostos e atraso no pagamento), 5 de março de 2020



Dado que os jornalistas e os meios de comunicação social desportiva deixaram há muito de fazer jornalismo – e o enquadramento dos factos é uma das funções do jornalismo, para que os leitores tirem as suas conclusões –, resolvi iniciar esta crónica selecionando as declarações do atual presidente do Sporting Clube de Portugal (SCP), Frederico Varandas, sobre os quatro treinadores que ele escolheu para uma das temporadas mais desastrosas da história do nosso clube, em que já batemos o recorde de derrotas em todas as competições.


Esta temporada foi também a primeira em que Frederico Varandas teve todo o tempo do mundo e todas as condições políticas para escolher o melhor plantel e a melhor equipa técnica para atacar a conquista do título 2019-2020.


Foi também a temporada em que Frederico Varandas vendeu Bas Dost ao desbarato, contratou entulho caro a esmo e sem nexo (Jesé Rodriguez, Fernando, Bolasie…) e, mais tarde, um avançado esloveno, de nome Sporar, que foi caríssimo em função do rendimento demonstrado.


Varandas nem sequer soube preservar uma boa relação com Bas Bost, o goleador que em 2018 foi o seu passaporte para a presidência do clube. Sim, foi a cabeça rachada de Bas Bost e a gravação em vídeo, aparentemente ordenada por Varandas, no balneário de Alcochete, que transformaram o médico em presidente.


Porque foi esse vídeo que mostrou ao mundo o único sinal de violência da tresloucada invasão à Academia de Alcochete. Varandas, que desde então ficou conhecido por "Fivelas", nem isso soube valorizar, preservando Bas Bost como um símbolo de resistência contra a violência no futebol.


Ironicamente, foi com a venda de Bas Dost, os remendos no plantel e os maus resultados que se seguiram que começou a forte contestação a Varandas, com grandes manifestações em Alvalade, que só o surto da covid-19 conseguiu travar.


Frederico Varandas é um presidente que nunca concretizou o propósito de unir o Sporting, no qual baseou a sua surpreendente candidatura no “Verão Quente” de 2018.


Em menos de dois anos, a administração Varandas já despediu cinco treinadores. Ou seja, com Varandas na presidência, o futebol do Sporting voltou, assim, aos tempos da instabilidade permanente.


Varandas diz que sabe o que quer e o que está a fazer, mas os factos têm demonstrado o contrário. A começar por Keizer que foi o treinador que Varandas fez questão de escolher de forma aturada para o seu projeto.


O treinador holandês acabou engolido no processo de preparação desta época, que revelou uma incapacidade gritante da administração leonina para gerir bem e de forma atempada as compras e as vendas de jogadores.


Seguiram-se Leonel Pontes e Jorge Silas, que estiveram muito expostos a resultados imediatos, pelo que não tiveram tempo para respirar, nem para errar.


E assim chegamos a Rúben Amorim, treinador que não pode sentar-se no banco como treinador principal, por falta de habilitações, tendo, ainda assim, sido o terceiro treinador mais caro da história do futebol mundial.


Quando Rúben Amorim chegou a Alvalade, Frederico Varandas já tinha removido parte do entulho que tinha comprado, falando, enfim, numa aposta nos jogadores da formação que tinham chegado a Alcochete no tempo do presidente Bruno de Carvalho – mas que são apresentados pela imprensa acéfala como produtos do tempo dos colchões novos.


Numa temporada tão agitada e com tantas mudanças, não admira que, decorridas 32 jornadas (faltam apenas duas para terminar o campeonato), estejamos a lutar pelo terceiro lugar juntamente com o Sporting de Braga.


A luta pelo terceiro lugar – que parece excitar alguns ditos sportinguistas – é o que nos resta, depois de uma presença para esquecer na Taça da Liga, na Liga Europa e na Taça de Portugal. Isto para além de termos sido cilindrados por 5-0 na Supertaça Cândido de Oliveira pelo Benfica mais fraco dos últimos anos.


Ou seja, em 2019 Varandas ainda levantou umas taças, tanto no futebol como nas modalidades, aproveitando o trabalho e as equipas que vinham do passado brunista, que tinha feito do Sporting um clube eclético competitivo e vencedor.


Com Varandas e a rapaziada pouco recomendável que anda à volta dele, o Sporting Clube de Portugal voltou ao tempo em que as suas ambições desportivas estavam limitadas ao futebol e morriam com a chegada do Natal.


Agora, Rúben Amorim é tido como a nossa panaceia. Como já vimos no Dragão, também Amorim será engolido, mais tarde ou mais cedo.


É uma questão de tempo e de mais resultados negativos. Porque Frederico Varandas já demonstrou frieza necessária para deixar cair os mais fracos na primeira esquina, ainda que sejam muito caros e comprometam as finanças do clube. Nesta história, o treinador é sempre o elo mais fraco.


Luís Paulo Rodrigues

16/07/2020


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