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Luís Paulo Rodrigues 16/04/2020 - Sporting, um clube de Portugal inteiro

“Eu não gosto de fazer distinções, mas a malta do Norte sempre foi mais atrasada.” Como sportinguista e como nortenho, confesso que fiquei incomodado ao ter conhecimento do pensamento profundo da senhora Maria de Lurdes Mealha sobre o povo do Norte, manifestado publicamente nas redes sociais, do alto do seu provincianismo lisboeta. Embora não sendo uma figura conhecida do grande público, Maria de Lurdes Mealha não é uma sportinguista qualquer. Foi candidata à Mesa da Assembleia Geral, como suplente, numa lista ironicamente designada “Unir o Sporting”, que ganhou as eleições de 2018. É, portanto, alguém da esfera de influência de Rogério Alves. Ao ter desqualificado os nortenhos, a senhora Mealha fez um ataque a milhares de sócios e adeptos sportinguistas que nascem, estudam, trabalham ou vivem no Norte de Portugal. E são sportinguistas por uma razão muito especial: em 1906, em Lisboa, Visconde de Alvalade, um advogado de Santarém, e o seu neto José Alvalade fundaram um clube para Portugal inteiro: o Norte, para o Centro, para o Sul e para as ilhas. Olhemos para alguns momentos da nossa história e para alguns espaços de manifestação de um fervor leonino verdadeiramente nacional e interclassista. Em 2002, o Sporting Clube de Portugal (SCP) festejou o seu último título de campeão nacional de futebol, sob o comando técnico do romeno László Bölöni e com os golos de João Pinto, Mário Jardel e companhia.


Enquanto continuamos à espera que o presidente Frederico Varandas diga às autoridades do futebol português e, já agora, aos sportinguistas, tudo o que prometeu que iria dizer sobre os bastidores da célebre temporada de 2015-2016, em que o melhor SCP de sempre, de forma estranha, foi incapaz de ser campeão, num despique titânico com o Benfica, a verdade é que já lá vão 18 anos sem que em Alvalade seja erguido o troféu mais importante de cada temporada – o título de campeão nacional, que constitui a melhor forma de promover e comunicar a imagem e a marca SCP no País e no mundo, gerando receitas e incrementando a militância de sócios, acionistas e adeptos. Este ano, entramos no período mais longo da história do clube sem conquistar o campeonato nacional de futebol. E um título nacional é o melhor meio de aferir a enorme popularidade do clube leonino. Dizem algumas vozes pretensamente entendidas na sociologia do futebol português que o Benfica é o clube do povo, que o FC Porto é o clube do Norte e que o Sporting Clube de Portugal não passará de um clube das elites lisboetas. E depois há sondagens: 6 milhões para um clube; 3,5 milhões para outro; e o resto para outro. Até parece que todos os portugueses têm clube. São ideias feitas, mas muito mal feitas, pois não correspondem à realidade. Assistir à festa popular que envolve a realização de uma final da Taça de Portugal com a participação do SCP é suficiente para desmentir essa ideia feita. Uma final com o SCP no Estádio Nacional transforma o magnífico vale do Jamor numa grande romaria verde e popular, onde não falta comida, bebida e muita animação.


Quando o SCP vai ao Estádio Nacional disputar uma final da Taça, o vale do Jamor cheira a povo vestido com os adereços verdes e brancos do clube – povo vindo de todo o País, do Norte, do Centro, do Sul e das ilhas. E o futebol transforma-se numa festa de todos, homens, mulheres, jovens e crianças; ricos, pobres e remediados. É aí, no meio do povo, que podemos confirmar a grandeza e a popularidade do SCP. Basta a conquista de um título nacional para fazermos a grande sondagem. Na memória de todos ficou a festa do título sportinguista de 1999-2000, na noite de 14 de maio. Foi uma enorme manifestação popular, de Norte a Sul do País, e também nas várias comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. Bastou a conquista de um título de campeão 17 anos depois para que os sportinguistas aparecessem por todo o lado, demonstrando, assim, a sua lealdade ao símbolo do leão rampante. Nessa noite de glória, depois de uma vitória por 4-0 sobre o Salgueiros, no Estádio de Vidal Pinheiro, no Porto – jogo que tive o privilégio de assistir enquanto jornalista do diário “Público” –, o País saiu à rua para festejar o título de uma equipa de futebol como nunca se vira em Portugal. Havia sportinguistas por todo o lado a festejar em todas as cidades portuguesas. Até na Avenida dos Aliados, espaço simbólico das vitórias portistas. E enquanto a equipa do SCP se deslocava para Lisboa, o velho Estádio de José Alvalade encheu para uma grande festa que durou até de madrugada!... Mas há lugares improváveis onde há sportinguistas que amam o clube, independentemente dos títulos. Por exemplo, Parambos, freguesia do Alto Douro vinhateiro, no concelho de Carrazeda de Ansiães, distrito de Bragança, é um exemplo de uma localidade do Interior cuja população sofre pelo SCP. É conhecida como a aldeia mais sportinguista de Portugal!... Em Parambos, o futebol profissional é aquele que chega pela televisão. Mas há lá um clube, o Sporting Clube de Parambos, que é a filial nº 87 do Sporting Clube de Portugal. Em dias de aniversário da coletividade, é costume serem convidadas figuras conhecidas do universo sportinguista, enquanto homens e mulheres do povo, assim como velhos e crianças, pegam numa peça de vestuário verde para mostrar a sua raça leonina. Estes exemplos, tanto de Parambos como das festas populares que celebram os títulos leoninos em todo o país, deveriam fazer corar de vergonha a senhora Mealha e outras pessoas que pensam como ela. E deveriam fazer com que os dirigentes do SCP tivessem mais cuidado antes de abrirem a boca ou de deslizarem os dedos pelo teclado do computador ou do smartphone. Até por uma questão de educação e civismo.


Viver em Lisboa e olhar para o SCP como se fosse um clube exclusivo de Lisboa, faz-me pensar na malta do Campo Grande Football Club, que em 1906 tinha transformado a agremiação num clube de festas para a alta sociedade lisboeta, esquecendo a promoção desportiva entre a juventude, o que levou ao abandono de José Alvalade para fundar o nosso clube. E, mais do que isso, revela uma impreparação confrangedora para representar o grande Sporting Clube de Portugal. Luís Paulo Rodrigues

16/04/2020

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