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Luís Paulo Rodrigues 09/04/2020 - O ciclismo como alavanca do Sporting



No mês de abril cruzam-se a vida e a morte de Joaquim Agostinho, o melhor ciclista português de todos os tempos e um dos melhores do mundo, que ficou na retina da família sportinguista como um símbolo marcante do Esforço, da Dedicação, da Devoção e da Glória do Sporting Clube de Portugal (SCP) e do ecletismo do clube fundado por José Alvalade, em 1906. Trago à colação o nome de José Alvalade porque, na Lisboa de inícios do século XX, ele fundou o SCP – com a ajuda financeira do avô, o Visconde de Alvalade –, projetando-o de imediato como um grande clube, tão grande como os maiores da Europa. Um clube grande e eclético para os jovens praticarem diversas modalidades desportivas e não um clube de danças e festas de salão da alta sociedade, em que se tinha transformado o Campo Grande Football Club. Este ADN eclético dos fundadores – de José Alvalade aos irmãos Gavazzo, entre outros, que abandonaram o Campo Grande para fundar o SCP – atravessou os 114 anos da história do clube, embora com épocas mais promissoras do que outras. Penso que a conhecida aposta da equipa principal de futebol na fábrica de talentos formados no clube – que é muito antiga e não começou com Alcochete –, tem a ver com essa cultura fundadora virada para a formação e integração social dos jovens através da prática desportiva. Entre 1973 e 1986, João Rocha, um empresário visionário que nem ligava muito ao futebol antes de ser convidado para assumir a presidência do SCP, ficou na história do clube por torná-lo verdadeiramente eclético e vencedor em diferentes modalidades, por ter aumentando o património e por ter criado as bases para uma mudança de paradigma na gestão do clube. João Rocha projetou no SCP a ideia de uma cidade desportiva com milhares de sócios e praticantes de modalidades – uma verdadeira potência desportiva em Portugal. Ele sabia que era da força dos números que viria a força das receitas económicas, o poder reivindicativo, a influência na sociedade e a capacidade de aglutinação e mobilização dos sportinguistas. Nas décadas de 1970 e 1980, o SCP atingiu 15 mil praticantes e 100 mil sócios, que vibravam com as medalhas de Carlos Lopes, os remates de António Livramento e as pedaladas de Joaquim Agostinho da mesma maneira que celebravam as grandes jogadas e os golos de Yazalde, Keita, Manuel Fernandes, António Oliveira ou Rui Jordão. Anos mais tarde, também Bruno de Carvalho trilhou este caminho de construção de um Sporting grande, influente e vencedor. Fez crescer o entusiasmo nas bancadas do Estádio de Alvalade, onde as assistências duplicaram, aumentou o número de sócios, que chegou a ultrapassar a fasquia dos 150 mil, soube contratar bons treinadores, resolveu graves problemas financeiros, aumentou o número de modalidades e criou duas estruturas de importância fundamental para a solidez e credibilidade do projeto desportivo do SCP. Refiro-me à Sporting TV, um braço mediático sonhado há muitos anos, cujas potencialidades nunca foram bem exploradas, e ao Pavilhão João Rocha. O pavilhão foi uma conquista histórica, pois ditou o fim de um autêntico suplício para as modalidades leoninas, parentes pobres do clube, que andavam literalmente com a casa às costas, treinando e jogando sempre fora de Alvalade, com tudo o que isso acarretou de negativo em termos de rendimento desportivo e de perda de influência desportiva do clube. Sabemos que o futebol é que movimenta grandes multidões e orçamentos, mas só um SCP eclético consegue ser verdadeiramente grande, competitivo, influente e inovador na comparação com o Benfica e o FC Porto. A propósito, o ano de 2018, assinalado com títulos nacionais do SCP em todas as modalidades de pavilhão, foi verdadeiramente épico e, em certa medida, preocupante para os nossos adversários. Vem tudo isto a propósito de Joaquim Agostinho, de quem me lembrei esta semana, porque nasceu em 7 de abril de 1943, há precisamente 77 anos, e deixou o ciclismo em 30 de abril de 1984, ao sofrer uma fratura no crânio numa queda motivada por um canídeo, na Volta ao Algarve, que era a primeira grande prova do regresso do SCP às estradas portuguesas. O ciclista ficou em coma até morrer no dia 10 de maio. Para mim, e para milhões de portugueses no país e nas comunidades de emigrantes, foi um choque terrível. Com 41 anos, Joaquim Agostinho, que já tinha ganho tudo em Portugal e brilhado na Volta à França – que era uma espécie de Liga dos Campeões do ciclismo –, preparava-se para terminar a sua carreira em Portugal com a camisola do seu clube, então a melhor equipa portuguesa. Mas, com a sua morte, o ciclismo leonino nunca mais foi o mesmo e voltaria a desaparecer. De qualquer modo, é também a Joaquim Agostinho que o SCP deve o facto de ter milhares e milhares de adeptos no interior do país – nomeadamente naquelas vilas e aldeias onde, por alturas da Volta a Portugal, a única camisola verde e branca que lá chegava era a dele e a de outros ciclistas leoninos. Curiosamente, foi também na presidência de Bruno de Carvalho que o SCP voltou a ter ciclismo. Desta vez, porém, com resultados muito modestos, dadas as condições da parceria entre o clube e a Câmara Municipal de Tavira. Uma parceria, entretanto, terminada, por desinteresse da Direção de Frederico Varandas, que não soube, ou não quis, procurar um novo parceiro estratégico para continuar com a equipa principal de ciclismo. Julgo, no entanto, que este abandono do ciclismo profissional representa um erro estratégico e uma gritante falta de visão sobre o papel da modalidade como mola do ecletismo do SCP e da implantação nacional da militância sportinguista.

Num país com as características de Portugal, onde um grande clube tem adeptos espalhados por todas as latitudes, o ciclismo apresenta, de facto, muitas vantagens na promoção do clube e da sua marca e poderia funcionar como canal condutor da comunicação e do marketing do SCP. Elencando seis dessas vantagens: 1 – O ciclismo permitiria promover a marca “Sporting Clube de Portugal” em todo o país, com a respetiva exposição mediática, a começar pelos meios de comunicação do clube. 2 – O ciclismo levaria a marca “Sporting Clube de Portugal” a vilas e cidades onde o futebol normalmente não leva. 3 – Com recurso a um “camião verde” o merchandising teria mobilidade suficiente para circular em todo o país e o ciclismo seria um dos canais de contacto com a população, em especial nas vilas e cidades de arranque ou paragem das etapas da Volta a Portugal e outras provas do calendário velocipédico. 4 – O ciclismo permitiria o contacto direto de dirigentes leoninos e atletas de outras modalidades com a população e autoridades locais, aproveitando as estruturas locais dos núcleos leoninos. 5 – Nas vilas e cidades onde a caravana do SCP estivesse presente seria possível lançar campanhas de angariação de sócios e promover a venda de “gameboxes” para a temporada de futebol. 6 – O ciclismo permitiria um cruzamento permanente dos responsáveis pelas diversas modalidades e respetivos atletas mais conhecidos em projetos de expansão da marca SCP. Com esta visão agregadora das forças leoninas, o ciclismo poderia funcionar como uma das grandes alavancas na dinâmica global do SCP. E com um projeto com esta dimensão e com estas características talvez não fosse assim tão difícil encontrar um excelente patrocinador, de modo a que todos ganhassem. Se há modalidades que foram vitais para a gloriosa história do SCP, o ciclismo é uma dessas modalidades. Tanto mais que, como demonstrei ao longo deste artigo, se o SCP investisse a sério no ciclismo, também estaria a investir no futebol e em todas modalidades. O desígnio de fazer do Sporting "um grande clube, tão grande como os maiores da Europa", expresso por José Alvalade, em 1906, também passa por aqui. E Joaquim Agostinho, esteja ele onde estiver, ficaria muito feliz.



Luís Paulo Rodrigues

09/04/2020


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