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Luís Paulo Rodrigues 07/05/2020 - De Idanha a Alcochete. Duas faces do jornalismo

Para os leitores que não me conhecem, lembro que venho do jornalismo. Nunca deixei de ser jornalista – porque um jornalista nunca deixa de ser jornalista… -, mas só trabalhei nos jornais entre 1985 e 2000. Hoje sou consultor de comunicação, ajudando empresas, marcas, instituições e figuras públicas a chegarem mais longe com a sua comunicação.

Curiosamente, comecei no jornalismo escrevendo sobre futebol. E Rui Jordão, meu ídolo da juventude e antiga glória do Sporting Clube de Portugal, foi o grande responsável pela minha decisão de vida.

Isso aconteceu quando Jordão, então o melhor ponta-de-lança do futebol português, na sequência de uma iniciativa do extinto jornal “Off-Side” com os leitores, decidiu anunciar publicamente que me oferecia as botas com as quais marcou aquele golo de Portugal à URSS (atual Rússia) e que colocou a seleção portuguesa na primeira fase final de um Europeu, em França, em 1984.


Eu tinha 18 anos e a entrega das chuteiras foi o momento de encerramento da festa de aniversário do jornal, que era dirigido pelo jornalista Alexandre Pais, numa discoteca de Lisboa. E foi nessa discoteca que eu, olhando para a nata do jornalismo desportivo português daquela época, que só via na televisão – Orlando Dias Agudo, Manuel Fernandes (jornalista de desporto na RTP Porto, falecido prematuramente num acidente de viação), Rui Tovar, entre outros –, e craques do futebol como Manuel Fernandes, Jordão, Oliveira, Chalana, Fernando Gomes, Carlos Xavier, entre muitos outros – decidi que seria jornalista. E assim foi.

Meses mais tarde, fazia o tirocínio na imprensa local, em Vila Nova de Famalicão, onde fui co-fundador de dois jornais semanários. Depois, trabalhei em títulos do jornalismo impresso de referência como “O Comércio do Porto”, a “Gazeta dos Desportos” ou o “Público”.

Nessa altura, entre meados da década de 1980 e finais da década de 1990, o jornalismo tinha uma transformação anunciada em função da emergência da Internet. Mas ainda trabalhei antes da Internet, quando cada edição de um jornal era escrita da primeira à última página, sem que houvesse a memória do Google. Na verdade, o Google de então era a memória que tínhamos um pouco acima dos ombros.

Também não havia notas de imprensa ou posts no Instagram para dar conteúdos à notícia do dia seguinte. Nessa altura, para termos conteúdo tínhamos de estar uma tarde inteira no estádio, à espera do fim do treino, até que os jogadores, o treinador ou o presidente decidisse sair do estádio. E era nessa altura que eram interrompidos pelos jornalistas que aguardavam por eles. Era aí que eram combinadas reportagens ou telefonemas com hora marcada para o telefone fixo lá de casa (não havia telemóveis). E isto acontecia porque os clubes não tinham assessoria de imprensa, nem agentes da cartilha que induzissem previamente nos jornalistas os temas a tratar.

Nessa época, e não passaram assim tantos anos, os agentes dos jogadores designavam-se por empresários e não tinham a influência que hoje têm sobre os clubes e os plantéis. Nem sobre os jornalistas.

Os jornais desportivos tinham grandes tiragens, na ordem dos 100 mil exemplares, porque não se copiavam uns aos outros, não admitiam entrevistas exclusivas a todos ao mesmo tempo (que não são nada exclusivas). Ou seja, tinham conteúdos verdadeiramente exclusivos e identidade própria. E, por isso, o vínculo entre o leitor e o seu jornal era forte e comprometido. Decidi escrever sobre isto a partir de duas peças televisivas que passaram esta semana nas televisões portuguesas, curiosamente assinadas por dois jornalistas de desporto: João Pedro Mendonça, da RTP, e Nuno Luz, da SIC.

João Pedro Mendonça demonstrou que um bom jornalista é capaz de fazer um bom trabalho jornalístico independentemente do tema abordado ao ter feito uma excelente reportagem na RTP sobre os dias do confinamento numa aldeia do interior, mais concretamente, na freguesia de Monsanto, no município de Indanha-a-Nova.

Aproveitando o seu confinamento forçado por razões de saúde, Mendonça teve a iniciativa de propor a reportagem e fez todo o seu trabalho – recolha de imagens, som, texto, edição, etc. – com o seu telemóvel. Demonstrou, assim, que o telemóvel é a máquina de comunicação mais completa e versátil inventada até hoje, pois é a única através da qual podemos fazer um programa de rádio, produzir uma reportagem de televisão ou escrever uma notícia de jornal.

Com o seu talento de jornalista e sem agenda definida previamente, João Pedro Mendonça retratou de forma belíssima o pulsar de uma aldeia remota que vivia cheia de turistas internacionais e que, de um momento para o outro, por causa da covid-19, ficou confinada às suas oito dezenas de habitantes, praticamente todos idosos. E foram os testemunhos desses idosos e as paisagens da terra que brilharam na reportagem.

Na mesma noite, Nuno Luz, na SIC, numa peça anunciada ao público como “exclusiva”, na Academia do Sporting Clube de Portugal, onde entrevistou o presidente Frederico Varandas, fez o trabalho típico de uma imprensa amestrada, que só revela aquilo que o clube permite que seja revelado. No fundo, fez mais uma encomenda para o “doutor Varandas”. E nem é preciso dissecar o vácuo da entrevista. Basta recordar um dado sobre um tema muito em voga durante este confinamento motivado pela pandemia da covid-19: o facto de o Sporting não ter pagado o terceiro treinador mais caro do mundo ao Sporting Clube de Braga na data combinada.

Como é público, o Sporting não pagou e o presidente do Sporting de Braga, António Salvador, veio a público dizer que não perdoará um tostão de juros a Varandas. Este, por seu lado, escudou-se na pandemia como motivo para adiar o pagamento, dadas as novas condições.


Apesar de tudo isto, o jornalista Nuno Luz não foi capaz de fazer a Varandas uma pergunta essencial: “Senhor presidente, por que é que decidiu entrar em negociações com o Braga para pagar Rúben Amorim, depois de o Sporting ter dito publicamente que o estado de emergência provocou uma alteração de circunstância e contexto, pelo que estaria confortável com o não pagamento nos prazos inicialmente definidos?”

O jornalista Nuno Luz, que durante o consulado Varandas já foi duas vezes a Alcochete, também não foi capaz de fazer o balanço das promessas que tinham sido feitas na entrevista exclusiva anterior. Não foi capaz de confrontar Frederico Varandas perante o falhanço desportivo do Sporting na Liga Portuguesa. Não foi capaz de confrontar Varandas com o falhanço completo das contratações de Fernando, Jesé e Bolasie, entre outros.


Não foi capaz de confrontar Varandas com a incapacidade que tem demonstrado para unir o Sporting Clube de Portugal.

No fundo, Nuno Luz é o produto de um jornalismo engajado com o poder, um jornalismo previsível, simpático, que não incomoda, que está de mãos dadas com os poderes dos clubes e com os grupos de pressão que giram em torno dos clubes. Um jornalismo cujos jornalistas estão sentados na cadeira da redação à espera do twitte ou do post no Instagram ou no Facebook, ou à espera do telefonema, do SMS ou do e-mail do assessor de imprensa do clube. Um jornalismo que está a marimbar-se para os leitores e para o interesse público da informação desportiva.

Esse jornalismo insípido que nada questiona e que tudo apoia é que contribui para um futebol cada vez mais viciado em torno dos mesmos esquemas e cada vez menos competitivo dentro do campo. Ou seja, um futebol com cada vez menos público interessado. É por isso que estamos há mais de dois meses sem futebol e pouca gente sentiu a sua falta.



Luís Paulo Rodrigues

07/05/2020


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