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  • Opinião com Assinatura

Luís Paulo Rodrigues 04/06/2020 - Rogério Alves e a crónica suspeita



Este é o primeiro texto escrito para este espaço após ter sido tornada oficial e pública a sentença do julgamento de Alcochete, havendo a destacar a surpreendente absolvição completa do ex-Presidente do Sporting Clube de Portugal (SCP), Bruno de Carvalho.


Nunca duvidei da inocência de Bruno de Carvalho, mas a sua absolvição completa é uma enorme surpresa porque, todos aqueles que agora dizem que a absolvição era esperada, estiveram na linha da frente do ataque, sem dó nem piedade, à pessoa de Bruno de Carvalho, a começar pelo promotor da sua remoção do clube, Henrique Monteiro, que só foi escolhido pera presidir ao Conselho Fiscal e Disciplinar de transição por ser na altura um inimigo publicamente declarado do ex-Presidente leonino.


Revelando uma insensibilidade humana brutal, que só traduz a sua boçalidade, a sua falta de independência e o seu parolismo militante, que, aliás, confirmou quando mostrou a toda a família sportinguista que não sabia o ano de fundação do SCP, Henrique Monteiro foi um dos seres reles que ficaram muito agradados com a escandalosa prisão de Bruno de Carvalho, em casa, num domingo ao princípio da noite, para prestar declarações a um juiz três dias depois, quando, sabemos agora, não havia a mínima razão para isso. Há vídeos na Internet que mostram a palermice de Monteiro, a dizer que a prisão naquelas condições era uma resposta à oposição que Bruno de Carvalho havia demonstrado face ao polémico processo de destituição – que incluiu Alcochete na ementa incriminatória.



O estilo de Henrique Monteiro, cujo trabalhinho estava definido ainda antes de ter aberto os processos destinados a afastar Bruno de Carvalho da órbita do SCP, insere-se na esteira do papel outros seres, como a procuradora Cândida Vilar – que até chegou a ser castigada pelo Conselho Superior da Magistratura, justamente por trapalhadas grosseiras durante a investigação ao caso de Alcochete, o que só aconteceu devido ao preconceito e à senda persecutória contra o ex-Presidente leonino.


A melhor resposta foi dada pelo coletivo das juízas presidido pela dra. Sílvia Pires, cujo teor da sentença nos revelou uma grande lição da justiça, tanto para os condenados pelo ataque bárbaro às Academia do SCP, como para aqueles que, nos palcos mediáticos e na justiça do SCP (que se antecipou aos tribunais de forma grosseira), queriam condenar pessoas inocentes de qualquer maneira.


O que se vai sabendo sobre os contornos que envolveram a revolução que afastou Bruno de Carvalho da liderança do SCP, daria para realizar um filme, que, estou certo, seria um sucesso no Netflix. Ou nas bilheteiras das velhas salas de cinema.


E depois há situações que, vistas com os olhos de hoje, são, no mínimo, muito suspeitas. Recordo, a propósito, um texto assinado por Rogério Alves, atual presidente da Assembleia Geral do Sporting, então um adepto notável, com palco semanal na SIC e no jornal “A Bola” (onde assinava uma coluna intitulada “O Mundo Sabe Que”).


O texto em causa, cujos excertos partilho aqui, para deixar à consideração de todos, foi publicado no jornal “A Bola”, no mês de abril, de 2018, após o SCP ter eliminado o FC Porto nas meias-finais da Taça de Portugal.


Na altura, Bruno de Carvalho já tinha escrito o post sobre Madrid, mas estava remetido ao silêncio, inclusive no Facebook. E o nome de Rogério Alves já era mencionado nos meios de comunicação e na Internet como estando a ser pressionado a candidatar-se à presidência do SCP, sem que houvesse eleições no horizonte.


Eis o excerto da crónica de Rogério Alves, com o subtítulo “O nosso Frederico de corpo e alma”, onde o atual presidente da AG do SCP elogia Jorge Jesus (seu cliente no processo com o Benfica, que tinha terminado num acordo algumas semanas antes), Frederico Varandas (descrito como “carismático médico”) e os jogadores Rui Patrício e William Carvalho (apontados como “símbolos” do clube, “aconteça o que acontecer”):


“Tenho elogiado, com merecida frequência, a atitude de Jorge Jesus, enformada pelas brilhantes qualidades de liderança que tem patenteado mesmo no meio da tempestade. Um elogio que estendo à nossa equipa técnica, que bem o merece também.


Não me canso de louvar o profissionalismo dos nossos atletas, superiormente capitaneados por Rui Patrício e William Carvalho, dois símbolos que, aconteça o que acontecer, terão sempre lugar cativo no quadro de honra da nossa história.


Hoje quero adicionar ao rol de homenageados o nosso carismático médico, Dr. Frederico Varandas. Declaro, aos costumes, que sou amigo do Frederico e sócio, na minha atividade profissional, do seu irmão.


Já de há muito pensara mencioná-lo e tributar-lhe reconhecimento. Há dias, em pleno estádio, ouvi, uma vez mais, vários comentários elogiosos ao seu comportamento em campo, mormente pela forma como incentiva e estimula a equipa, o que perpassa no estilo que coloca nas suas tradicionais intervenções, sempre que é chamado a tê-las.


O Frederico é um médico competentíssimo, sendo assim reconhecido pelos seus pares e pelo universo de quem já com ele lidou. Mas é, igualmente, um sportinguista dos pés à cabeça, que vive e vibra com o clube, sofrendo com as derrotas e exaltando com as vitórias, ele que, de igual modo, tem nelas parte de leão, pelo que bem que trata os nossos artistas. A ele e à sua equipa deixo esta singela referência, que só peca mesmo por ser tardia.”



Foi isto que escreveu Rogério Alves. Alguns dias depois, o SCP não teve competência para vencer o Benfica (empate a zero em Alvalade), e deixou-se perder com o Marítimo, na Madeira (o célebre jogo em que Jorge Jesus não incentivou os jogadores como era seu costume), sendo afastado da Liga dos Campeões ao ter sido ultrapassado pelo Benfica.


Obviamente, não acredito que uma coisa tenha a ver com a outra. Mas há uma coisa que esta crónica de Rogério Aves nos diz: Bruno de Carvalho já estava posto de lado. E “tempestade” foi a palavra escolhida pelo então influente cronista leonino para retratar o que teria a ver com o Presidente do clube.



Luís Paulo Rodrigues

04/06/2020


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