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João Trindade 18/04/2020 - Dias com muitos nomes

Acedendo ao convite e sugestão do meu querido amigo Bruno de Carvalho tentarei colaborar, não de uma forma comprometida e regular mas apenas sempre que tiver algo de interessante para compartilhar com quem acede e lê o que se vem publicando nesta página. Dizia-me o Bruno: você é médico, escreve bem (elogio de amigo) e é sócio do nosso Sporting há mais de 70 anos. Sim, é verdade.


A minha vivência de clínico é longa. Exerci a minha profissão com muito amor, entrega e dedicação durante meio século. E com a competência que Deus me deu. Nunca neguei tempo às pessoas que me procuraram e em mim confiaram. Arrumei o estetoscópio com a consciência muito tranquila.


Tratei milhares de doentes, felizmente fiz centenas e centenas de amigos que ainda hoje, os que me encontram, testemunham isso mesmo, reconhecimento e gratidão. Recentemente entrei num elevador no parque do Centro Comercial das Amoreiras; disse bom dia a duas senhoras de idade e a um senhor com cerca de 60 anos. Durante a subida o senhor disse: Dr Trindade posso dar-lhe um abraço? É que foi o senhor quem me salvou a vida. Abraçou-me com emoção. Saiu no piso 1; eu e as senhoras continuámos e uma delas olhou para mim, comovida como eu, e disse apenas é tão bonito ver isto! Pois é: histórias como esta todos nós, médicos, temos, felizmente, muitas para contar.

Numa viagem à Turquia, em excursão de autocarro a partir de Istambul, conheci um casal. Ele, divertidíssimo, ela, uma simpatia de senhora. À medida que os dias iam passando o relacionamente foi-se tornando, naturalmente, mais aberto e simpático. Percebemos todos, a determinada altura do trajeto, que a maior parte do grupo era ou simpatizava com o Sporting. O tal senhor, de quem não me lembro do nome, disse-me que estava num lugar cativo mesmo atrás de mim, no estádio (estamos a falar do estádio antigo).


Calcule-se. Não o havia reconhecido. Pedi-lhe imensa desculpa pela indelicadeza, mas ele retorquiu, oh, doutor, mas a ver aquela maravilha de equipa jogar à nossa frente no relvado quem é que olha para tràs? Passámos uns dias muito agradáveis e ele e eu, sempre que podíamos e a propósito de tudo e de nada, puxávamos a conversa para o Sporting até para irritar, porque éramos muitos mais, os 2 ou 3 benfiquistas que, educadamente, diga-se, nos suportavam. Somos assim, mesmo longe de Alvalade.

Aqui há uns dez anos, ou mais, cruzei-me com um rapaz de raça negra, bem constituído, vestido modestamente, mas risonho e de cabeça levantada, coxeando com alguma dificuldade. Ele parou à minha frente e afirmou: o dôtou não está a me conhecer, mas eu nunca esqueci a sua cara. Tratou de mim na Guiné, em Empada, e por causa disso ainda hoje tenho a minha perna. Ficou a coxear mas ainda cá está! E deu-me um apertado e prolongado aperto de mão. Retribuí com um abraço e com dez minutos de conversa sobre os tempos da guerra colonial.


Os seus olhos marejados de lágrimas e aquele abraço guardo-os ainda no meu coração. Histórias da guerra que passei na Guiné foram muitas, também: estão reunidas num livro que intitulei “Dias Sem Nome”. Refiro-o aqui sem constrangimentos porque está esgotado e portanto não carece de divulgação. E por isso mesmo poderei, sempre que se justifique e sem querer enfastiar os meus eventuais leitores, contar aqui, uma vez por outra, alguns episódios curiosos, divertidos ou mesmo dramáticos que fazem parte da história dessa época da minha vida. Sou dos que entende, e por isso escrevi o livro, que a guerra colonial não deve ser esquecida e temos a obrigação, principalmente os que por lá tiveram a infelicidade de passar, de a não esquecer, antes de a recordar, registar e contar às novas gerações.


Daí a frase que há umas semanas atrás ouvi num programa de televisão e a propósito da vaga de jovens que entenderam ir para a praia no primeiro dia de suspensão das aulas devido ao Covid-19. Alguém disse: aos vossos avós pediram-lhes que fossem para a guerra, a vocês só lhes estamos a pedir que fiquem em casa; custará assim tanto?

Os dias que estamos todos a passar não são “dias sem nome”. São dias com muitos nomes. Os que cada um de nós lhes quiser atribuir. São dias de espanto, dias de sacrifícios, dias de expectativa, dias de medo?, dias de sofrimento para alguns, dias de esperança para outros, dias de luto para muitos que viram partir os seus entes queridos, principalmente os da minha geração, meu Deus!, dias de reflexão obrigatória, dias de propósitos e de projetos futuros, a vida não voltará a ser o que foi, dias de paciência em casa, dias de invenções de modos de vida e de entretenimento, dias de leitura, dias de voltar aos clássicos, livros e filmes, dias de conversa com quem temos a felicidade de estar junto, dias de espera em dias melhores.



É isso: dias de espera. E eu espero, e prometo, voltar a escrevinhar umas linhas se vocês, a quem hoje dirijo estas, tiverem a bondade, a paciência e a condescendência de uns minutos, poucos, de atenção. Muito obrigado a todos e terminarei com uma frase que estava à entrada da sede do grande Sporting Clube de Portugal, na Rua do Passadiço, onde em 1949 o meu querido Pai me inscreveu como sócio do mais bonito clube do mundo: Hoje e Sempre Sporting!



João Trindade

18/04/2020


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