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  • Opinião com Assinatura

João Trindade 09/05/2020 - De Caxias a Alvalade



Entrei na Faculdade de Medicina de Lisboa no ano letivo de 1961/62. Em outubro de 61, mais propriamente. Desde cedo tive, no liceu e na faculdade, atividades extra-escolares: na Associação dos Estudantes da Faculdade de Medicina e no Orfeão Universitário de Lisboa que, anos depois, foi encerrado e extinto.


Fazia, portanto, e por inerência dessas funções, parte de uma organização de cúpula dos estudantes denominada RIA (Reunião Inter-Associações), à data presidida por Jorge Sampaio recém-licenciado em Direito. Na fotografia que junto vêmo-lo a presidir a um comício na tribuna do Estádio Universitário (referenciado com o nº 4).

Foi agendado para o dia 24 de março de 1962 o início das comemorações do 1º Dia do Estudante, imediatamente proibido pelo governo de Salazar. Iniciaram-se, então, as perseguições pela polícia política e pelas forças especiais da PSP, a famosa Polícia de Choque, com cargas, espancamentos, detenções e ocupação das instalações universitárias. Muito mal passámos nesses atribulados dias de contestação e de luta. Foi entretanto decretado pela RIA um luto académico e uma greve nacional às aulas, que teve o apoio e a solidariedade de vários professores universitários.


Dias depois foi aprovada em plenário uma greve de fome na cantina universitária, em frente ao Hospital de Santa Maria, com início a 9 de maio, completam-se neste sábado 58 anos! Dois dias depois, estando centenas de estudantes ali reunidos, num gesto de solidariedade com os colegas em greve de fome, eis que somos surpreendidos com um cerco a essas instalações por dezenas e dezenas de polícias armados, trajando bastões, pistolas, capacetes e viseiras. Tinham soado as 3 horas da madrugada.


Recebemos, um a um, ordem de prisão e fomos obrigados a permanecer largo tempo sentados no chão na sala maior das refeições. Mais tarde, já próximo do raiar do dia, fomos sendo introduzidos, por grupos de 30 a 40 estudantes, em autocarros da carris. Foram presos 800 estudantes, incluíndo os colegas em greve de fome, e conduzidos em 26 autocarros até diversos estabelecimentos prisionais. A mim, por ser dirigente académico, coube-me fazer parte do grupo dos restantes dirigentes identificados e dos grevistas tendo-nos calhado em sorte (?) o forte-prisão de Caxias. A maior parte dos estudantes presos nessa noite foi libertada no dia 14 de maio. Eu e alguns dirigentes mais pudémos sair, depois de exaustivas identificações e interrogatórios, no dia 26 de maio, sábado de manhã.


E ainda bem porque…No dia seguinte, domingo, o nosso Sporting jogava em Alvalade. E não era um jogo qualquer. Era um Sporting-Benfica que podia decidir o título, uma vez que estávamos pontualmente empatados com o Futebol Clube do Porto que jogava essa última jornada do campeonato em Guimarães. Já não me lembro se a tarde estava soalheira ou não.

Sei que o estádio estava a transbordar, com gente até na pista de ciclismo, com o colorido dos dias de festa, de verde e branco vestido , enfeitado com serpentinas e quadradinhos de papel com as cores do nosso clube.


Nem era preciso ganhar desde que o Porto não vencesse. Mas, pelo sim, pelo não, todos nós queríamos ganhar. Recordo a visão que tive desde o meu lugar, visão que ainda guardo, de uma multidão entusiástica e eufórica, de pé, braços no ar, aplaudindo a entrada em campo da nossa equipa: Libânio; Lino e Hilário; Perides, Lúcio e Fernando Mendes; Hugo, Figueiredo, Diego, Geo e Morais. Inesquecível! Era a festa do título. Juca era o treinador substituindo o demissionário Otto Glória. Três golos nossos na primeira parte: o 1º aos 20 minutos de jogo por Morais, logo a seguir Hugo faturou antes da meia-hora, Eusébio reduziu e um auto-golo de Costa Pereira, o famoso guarda-redes encarnado, a cinco minutos do intervalo, fixou o resultado. Assim, os segundos 45 minutos foram de apoteose e celebração com uma exibição de gala e verdadeiramente inesquecível.

Vencemos 3-1. A tradicional invasão de campo não se fez esperar. O apito do árbitro despoletou os impacientes adeptos. Valeu tudo. Os jogadores de ambas as equipas (naquele tempo era assim) não tiveram como fugir. Alguns conseguiram regressar aos balneários em cuecas, outros nem isso!

E cada campeão levou para casa de prémio, calcule-se, 105 euros! Outros tempos. E que tempos, meu Deus! Já agora referir que o Porto perdeu em Guimarães e portanto o título, o nosso 15º título, ficou em Alvalade para enriquecer ainda mais a nossa brilhante história e o troféu tomou lugar no nosso já bem recheado museu.

Dia do Estudante, cargas da polícia, greve de fome, prisão em Caxias, tudo isso ficou para trás. A recompensa desses dias muito atribulados e penosos foi aquela maravilhosa tarde que vivi em Alvalade, e logo frente ao rival Benfica, da conquista de mais um título de campeão nacional. Há factos que a gente nunca mais esquece na vida. Por mim, estes que acabo de vos narrar, estão e ficarão para sempre gravados na minha memória e na minha alma. E ensinaram-me também, aos 20 anos de idade, que a vida nem sempre é um passeio numa alameda de flores; não, nada disso, tem escolhos, tem obstáculos, tem momentos menos bons, duros, marcantes. Há-que enfrentá-los e vivê-los. E há sempre outro dia, há sempre uma janela que se abre se uma porta nos é fechada e nos interrompe o caminho, há sempre uma esperança que nos incita a prosseguir e não parar nem desistir. Há “Caxias”, houve “Caxias”, mas também há “Alvalades” e houve e vai haver sempre “Alvalades”.


Que bom que é ser deste clube! Permitam-me que dedique este texto à Ana e ao Rui, os pais do Bruno, pessoas que muito estimo, e que se devem lembrar destes acontecimentos e factos que aqui descrevi.

Até à próxima, amigos. Hoje e Sempre Sporting!



João Trindade

09/05/2020


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