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Entrevista ao Rugido Verde: Bruno de Carvalho aborda a génese e as polémicas da Superliga



Autor: Rugido Verde



Rugido Verde: Esteve cinco anos e meio na presidência do clube e da SAD. Recorda em que ocasião lhe chegaram ao conhecimento as movimentações para a criação de uma Superliga e os actores envolvidos?


Bruno de Carvalho: Tentando recorrer à memória, o cenário de uma Superliga começou a ser desenhado em 2015.


O grande impulsionador foi Karl-Heinz Rummenigge, do Bayern Munique. Estavam também na linha da frente Milão, Inter de Milão e Juventus. Real Madrid, Barcelona e Atlético de Madrid. Manchester United, Manchester City, Chelsea, Liverpool e Arsenal. PSG e Mónaco estavam em boa posição. O Benfica tentava ser um dos 15 seleccionados. Os estágios, tão criticados internamente pelos seus treinadores, nos EUA, em 2015, 2018 e 2019, fizeram parte dessa estratégia.


Relembro aqui as palavras de Rummenigge em 13.01.2016:


Bayern Munich chairman Karl-Heinz Rummenigge has rekindled the idea of creating a European super league involving the elite teams from the Premier League, Bundesliga, Serie A, La Liga and Ligue 1. Such a competition was previously put forward by the now-disbanded G14 group of Europe's top clubs, and Rummenigge, chairman of its replacement the European Club Association, has raised the proposal once again.

The Bayern executive believes the growing superiority of a handful of sides in their respective countries means such a proposition is a distinct possibility in the future.

You can't rule out that, in the future, we could create a European league with the major clubs from Italy, Germany, England, Spain and France, under the umbrella of UEFA or a private organisation," Rummenigge said.


Neste momento Rummenigge, que era a favor de uma “Liga dos Campeões com apenas equipas sexies”, era claro a afirmar que o futebol tinha de passar por uma Superliga, a ser gerida pelos clubes poderosos, que a competição seriam 20 clubes, com jogos por todo o mundo, nomeadamente na América e Ásia (tudo exactamente como foi apresentado agora em 18 de Abril por Florentino Pérez).


Mas todo este novo modelo precisava de financiamento e aí entra o “super agente” Jorge Mendes e os seus novos “amigos” americanos.


O Bayern queria liderar e presidir esta Superliga e o passo dado em relação ao “super agente” foi dado em Maio de 2016. Nesse dia Renato Sanches assinou contrato de cinco anos pelos bávaros, na maior transferência de sempre, na altura, de um portugues para o futebol estrangeiro. Foram 35 milhões de euros, podendo o Benfica ainda receber um bónus de 45 milhões de euros dependendo das actuações do jogador.


Em 2017 era quase uma inevitabilidade a criação de uma Superliga. Nada tinha a ver com a pandemia (que só aconteceu anos depois) mas apenas com a estranha noção, de alguns, que o futebol é dos ricos e que os outros têm de deixar os poderosos gerir o futebol para depois “comerem” as migalhas que estes quiserem deixar.


Pelo caminho Jorge Mendes não viu a sua influência na Alemanha a aumentar, antes pelo contrário, e Rummenigge começou a ver que os seus “colegas” de Superliga preferiam Florentino Pérez para os liderar. É assim que os 15 clubes, que seriam os fundadores, se vêem reduzidos a 12. Os alemães saem por não lhes ter sido dada a liderança. Os clubes franceses caem por não cumprirem o critério “sexy” exigido e o Benfica nunca foi considerado. Já o Tottenham consegue atingir a tão desejada “sensualidade” quando fechou Mourinho com o "super agente" Jorge Mendes.


Não deixa de ser “curioso” ler a notícia de ontem onde: Bayern de Munique critica Superliga e Rummenigge (do Bayern) substitui Agnelli (da Juventus) na UEFA… É o chamado “roda bota fora” dos meandros do futebol.




RV: Como encarou a oficialização da ruptura por parte dos 12 clubes no actual contexto?


BdC: Para se oficializar esta decisão “aberrante”, os 12 clubes sabiam que tinham de arranjar uma narrativa que o “mundo” do futebol pudesse apoiar. A pandemia foi o mote e julgaram que, com a mesma e o afastamento dos adeptos dos estádios, houvesse uma atitude egoísta e de mera sobrevivência por todos.


Os dados seriam lançados e a aposta era criar mesmo a Superliga ou obrigar a que o novo modelo da Champions League, que ia ser apresentado no dia seguinte, fosse alterado consoante as suas exigências.


As negociações anteriores não tinham corrido bem, as suas pretensões não foram atendidas e tinham de mostrar “força” à UEFA e FIFA. Durante os últimos 6 anos assistimos a uma guerra “surda” e de bluffs, até que uma parte (Superliga) deixou de fazer bluff e agiu e a outra parte (UEFA e FIFA) deixou de se fazer de surdo e reagiu.




RV: Esperava os desenvolvimentos subsequentes? Que desfecho mais teme desta história rocambolesca?


BdC: As reacções “agressivas” dos adeptos ingleses, de vários atletas ingleses, no activo ou fora do activo, de treinadores, como Guardiola ou Klopp, deixaram-me muito curioso sobre o que iria acontecer. Eu escrevi logo, “a Superliga não irá passar”. Não fiquei surpreendido com a decisão dos 6 clubes ingleses, de recuarem na sua posição e abandonarem o projecto da Superliga. Mas fiquei feliz e aliviado pois ainda não foi desta vez que o futebol ficou com um dono global, e ainda podemos sonhar que um dia o futebol volte a ser, de facto, solidário e apologista da meritocracia.


O abandono dos clubes italianos, logo a seguir aos ingleses, já era mais expectável e a saída do Atlético de Madrid é facilmente explicável porque não se querem afundar com o seu rival Real e até lhes dá um certo gozo ver Florentino a pregar sozinho para a Catalunha.




RV: Em 2018, o Football Leaks trouxe à luz os planos concretos e os envolvidos. Não existiu qualquer acção ou reacção por parte das instituições desportivas nem por parte das instituições políticas. O que pensa ao respeito?


BdC: Que sempre defendi uma reforma da UEFA, FIFA e uma intervenção séria dos governos no futebol.


Cada episódio, novo no futebol, só me faz acreditar ainda mais no que sempre defendi. Mexer a fundo, neste universo futebolístico, é uma caixa de pandora que ninguém tem a coragem de abrir.


Desta vez os poderosos tentaram dar um murro na mesa, mas a mesa partiu. Eles vão-se preparar. Eles vão criar uma “mesa” mais forte, e não vão desistir. Quem julgar que aquilo que esteve subjacente a esta “rebelião” falhada, terminou, nada percebe de futebol.


Este foi apenas o primeiro round. Mendes e os 12 “ricos rebeldes” já estão a preparar o round seguinte. E não vão cometer os mesmos erros. Se do outro lado nada se fizer, cometendo os erros graves do costume, o futebol pode não ganhar as próximas batalhas.




RV: Concorda com alguma das "ideias" expostas por Florentino Pérez ao El Chiringuito? Ficou na retina alguma frase em particular?


BdC: Quero iniciar por dizer que tenho estima e consideração por Florentino Pérez. Terei a oportunidade de um dia lhe dizer, em breve e pessoalmente, o que penso desta atitude e deste projecto.


Feita esta ressalva, quero dizer que achei perfeito o local onde Florentino Pérez deu a entrevista pois, sem dúvida nenhuma, que tudo isto é uma mera questão de “guito”.


Sobre as “ideias” expostas não concordei com nenhuma. Foi um hino total à hipocrisia que reina no futebol.


As frases destacadas pela imprensa da entrevista e seu significado:


1. "Estamos a fazer isto para salvar o futebol, que atravessa um momento crítico. Estamos todos arruinados."

Significado - Não temos dinheiro para pagar os novos estádios e 350 milhões de euros já cobrem parte do empréstimo.


2. “O futebol tem que evoluir, como empresas, pessoas, mentalidades [...] A pandemia acelerou o processo porque estamos todos arruinados.”

Significado - Nas últimas décadas os clubes ricos atingiram dívidas entre 500 milhões de euros a mil milhões de euros cada um. Precisam de dinheiro para conseguirmos continuar a gerir sem sentido nenhum.


3. "Os clubes importantes da Inglaterra, Espanha e Itália têm que resolver uma situação futebolística muito má."

Significado - Devido a péssimas gestões, e agravado um pouco com a pandemia, precisam de tentar salvar as próprias peles.


4. “Quando vou à rua com a máscara e penso que não vão me reconhecer, algum fã grita comigo 'presi, assine o Mbappé.”

Significado - Os clubes ricos têm dívidas galácticas, mas não têm a coragem de as assumir perante os adeptos. Assim têm de arranjar alguém que os ajude a ir “maquilhando” a contabilidade.


5. "Os jovens já não se interessam por futebol. Por que não? Como há muitos jogos de baixa qualidade, eles têm outras plataformas para se distrair."

Significado - São os chamados clubes “ricos” que têm perdido adeptos, nos últimos anos, devido aos constantes escândalos de corrupção no futebol. Mas como não querem lutar pela transparência e pela verdade desportiva, continuam a fingir que a culpa é dos clubes “pobres” e tentam ficar com o monopólio e com os adeptos todos, até estes acabarem.


Para mim a frase mais interessante de toda a entrevista foi no final: “então boa noite e até a próxima!"




RV: Quer o F. C. Porto quer o S. L. Benfica manifestaram uma posição de forma directa ou indirecta, num dos casos verdadeiramente antagónica à prática de bastidores. Frederico Varandas enviou uma nota a um jornal parceiro, na qual referiu que a "Superliga vai contra todos os princípios democráticos e de mérito". Qual foi a sua reacção imediata ante tais palavras?


BdC: Fiquei feliz por saber que Varandas sabe pronunciar estas duas belas palavras.

(Correcção do autor: a esta hora chegou “à nossa redacção” que quem escreveu a nota foi Miguel Braga, pelo que continua a dúvida se Varandas sabe sequer que existem as palavras democracia e mérito.)




RV: Esta "indústria", que apenas busca o lucro por todos os meios, é já um ponto sem retorno numa sucessão de erros, ou ainda existe alguma possibilidade de sobreviver algum romantismo histórico e devolver verdadeiramente o futebol aos adeptos? Quem se opõe será inevitavelmente afastado face aos fluxos de dinheiro, conivência e às redes envolvidas?


BdC: Infelizmente, o volume de dívidas, que os clubes acumularam, nas últimas duas décadas, tornam quase impossível a devolução dos mesmos aos adeptos. Os adeptos foram levados, por sonhos e promessas de outros, para um abismo financeiro que tudo condiciona.


Os valores de pertença, de família, de universo, que o clube lhes dava, passou para investidores, donos e reestruturações financeiras. E os “donos” não abdicam dos milhões que o futebol proporciona. Não abdicam da lavagem de dinheiro, de negócios ilícitos, que o futebol proporciona. Não abdicam da “honorabilidade” que ser “dono” dos clubes lhes proporciona.


O futebol tornou-se na “galinha dos ovos de ouro” de gente sem amor pelos clubes, de gente sem escrúpulos, de gente que vai sorver o futebol até não sobrar nada.


Os adeptos tiveram culpa pois deixaram que estes “vampiros” se apoderassem dos clubes.


Eles não procuram o lucro dos clubes, eles procuram o seu lucro pessoal, pois os clubes acumulam centenas de milhões de euros de dívidas.


Estamos a falar de um negócio de vários biliões por ano! Quem se opuser coloca em risco, não só o negócio podre em que o futebol se tornou, mas a lavagem de dinheiro dos piores negócios que o mundo tem. Sim, o futebol tornou-se no “banco” de cadeias criminosas, que utilizam o amor de milhões para manter, em grande, as suas actividades criminosas.


Quem se opuser terá de ser eliminado.


Se eu acredito que um dia o futebol vai voltar aos adeptos? Eu acredito que os adeptos ainda têm a solução nas mãos. Mas confesso que só vejo os adeptos reagirem quando tudo é demasiado evidente. Isto significa que os adeptos só reagem a certas coisas e não conseguem recuperar o futebol pois isso necessita de ser um trabalho diário e permanente.


Eu quero acreditar que o futebol será um dia novamente dos adeptos. E digo apenas que quero acreditar e não que acredito pois, para isso acontecer, os adeptos tinham de ter, na sua generalidade, em todos os dias e em todas as horas, a inteligência daqueles que poluem o futebol. Os adeptos são mais, os “poluidores” são menos mas, infelizmente, muito mais inteligentes.



Rugido Verde

22/04/2021



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