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Alexandre Guerreiro 23/05/2020 - Os Grupos Organizados de Adeptos e a porta giratória

Foi notícia no início desta semana o ataque conduzido por um grupo de cerca de 15 pessoas contra apenas três, junto ao Estádio José Alvalade. Critico, em primeiro lugar, a comunicação social, em geral, pela forma deficiente com que a notícia foi dada. Não basta escrever em meia dúzia de linhas que 15 adeptos do Benfica atacaram três do Sporting e juntar um ou dois vídeos amadores esperando que todos acreditem que é verdade. Vendo-se esses vídeos, não se percebe que se tratam de adeptos do Benfica e do Sporting.


Como é óbvio, não é exigível que se revelem as fontes, mas quando um jornal (“O Jogo”) diz que a PSP não tem qualquer sinal que aponte para adeptos do Benfica e que as vítimas não conseguiram identificar os agressores, não se pode deixar que o público chegue à informação sobre a filiação clubística dos envolvidos apenas pelo facto de ter ocorrido junto ao Estádio do clube de um dos grupos.


Notícias servidas assim estão a pedir a especulação do destinatário. E também abre espaço para os negacionistas sempre prontos a rejeitar o envolvimento de alguns dos “seus” ao mesmo tempo que preferem apontar o dedo ao adversário. Na sequência dos acontecimentos, fiz questões com o objectivo de forçar a comunicação social a dar mais informação do que a quase nenhuma que infelizmente deram. Não neguei a autoria de ninguém, nem sugeri que o local da ocorrência foi coincidência. Fi-lo porque, ao contrário do que muitos julgam, notícias dadas como esta nos foi dada ajudam mais à repetição do que à repressão deste tipo de actos.


Porquê?

Porque quem os faz tem um objectivo: afirmar-se entre outros como eles através da selvajaria. Como sei isso? Não se tratou de um assalto (como se percebeu e ninguém referiu) e resumiu-se tudo apenas a agressão contra alvos que já se sabia que provavelmente iriam ser encontrados naquele local. E é por tudo isto que os agressores evitam usar adereços do grupo a que pertencem (reduzindo provas que os exponham publicamente) ao mesmo tempo que atacam em grupo (forma de garantir a superioridade que dá a vitória) e, preferencialmente, tentam filmar a ocorrência para a mostrarem a quem lhes interessa.

Em contra-terrorismo, há quem fale na “teoria da porta giratória”, que é quando o terrorista beneficia do melhor dos dois mundos: pode atacar como combatente quando lhe apetecer, porque ninguém está à espera; quando se quiser proteger e garantir que não é atacado basta não atacar e a lei dá-lhe imunidade. Aqui, não é diferente. Tenho a certeza que a PSP calcula a que grupo pertençam, pode é não saber (ainda) quem são em concreto cada um dos envolvidos.

E isto tudo acontece, em inúmeros casos, porque temos alguns grupos organizados de adeptos que se recusam a entrar nos registos das autoridades. Não querem ser identificados porque a clandestinidade favorece as suas actividades ilícitas e garante-lhes a “porta giratória”: têm todas as regalias dos GOA quando precisam, mas podem cometer todo o tipo de crimes e dinamizar a entrada e saída de membros sem que qualquer pessoa os controle. Isto obriga a um esforço redobrado das autoridades e coloca as forças de segurança num autêntico jogo do gato e do rato sem danos de maior para quem actua incógnito.

Neste ponto, estou totalmente de acordo com Bruno de Carvalho: se todos os elementos dos GOA estiverem identificados, é menos provável que saiam à rua para agredir adeptos de clubes adversários apenas pelo puro instinto selvagem com que primam a sua vida em sociedade. Sabem que de alguma forma são monitorizados e ficam expostos se se atreverem a fazê-lo. Acabou-se o modo incógnito!

Parece-me, por isso, óbvio que a sociedade como um todo tem interesse em saber que todos os clubes são transparentes e os GOA e respectivos membros estão registados apenas para efeitos desportivos e prevenção de violência. É importante que todos saibam que nenhum clube apoia entidades obscuras e juridicamente anónimas e que ao mesmo tempo que animam o espectáculo desportivo conduzem actividades criminosas que eu me dispensarei de identificar aqui tal o rol possível de crimes.


Não é que com esse registo de GOA e respectivos membros o crime com instrumentalização do desporto vai acabar. Mas podem ter a certeza que diminui consideravelmente. Também por isto, ou todos os clubes desportivos cumprem as regras ou as instituições devidas têm de ter coragem para as obrigar a cumprir sob pena de serem penalizadas em caso de incumprimento.




Alexandre Guerreiro

23/05/2020


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