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Afonso Pinto Coelho 15/04/2020 - SAD: 50%+1



Mais uma semana de recolhimento em casa em virtude da situação actual que o mundo vive, mais uma semana para podermos reflectir sobre assuntos da mais diversa ordem. Nesta semana, escrevo sobre o modelo de sociedades desportivas nos países da Europa com maior média de espectadores nos estádios de futebol e com mais sucesso desportivo no panorama europeu, e a sua transposição para o futebol português, e mais particularmente para a realidade do Sporting Clube de Portugal. Considerando uma análise da ultima década (ano em curso não completado, e restantes nove épocas), verificamos que quem ganhou a Champions League na ultima década foram: Real Madrid-4 títulos, Barcelona-2 títulos, Bayern Munique-1 título, Chelsea-1 título e Liverpool-1 título, sendo que nesta época não sabemos quem irá ser Campeão Europeu, ou mesmo se haverá Campeão Europeu. Podemos verificar que 7 dos 9 títulos de Campeão Europeu dos últimos anos foram ganhos por clubes controlados e dominados pelos sócios dos respectivos clubes (Real Madrid, Barcelona e Bayern Munique). Penso que será indiscutível considerar que existem claramente cinco países que estão acima de Portugal no panorama futebolístico europeu de clubes (Espanha, Inglaterra, Alemanha, Itália e França), o que é confirmado até pelo actual próprio Ranking Uefa em função da participação dos clubes de cada país nas competições europeias. Contrariamente a estes três países (Espanha, Inglaterra e Alemanha), nenhum clube italiano ou francês ganhou a Champions League neste período (pese embora os elevados investimentos feitos nos últimos anos pela Juventus-Itália e mais ainda pelo PSG-França), nem as assistências médias em termos de espectadores nos estádios italianos e franceses atingem os níveis de Alemanha, Inglaterra ou Espanha. Por outro lado, se considerarmos o top 5 de clubes em termos da maior média de assistências nos diferentes campeonatos europeus, temos Borussia Dortmund, Manchester United, Bayern Munique, Barcelona e Real Madrid. Desses 5 clubes, apenas o Manchester United é controlado por investidores privados, sendo neste caso existe um grupo de adeptos descontentes com os actuais investidores privados, e que fundou o F.C.United of Manchester.

Fonte: Observatório Internacional do Futebol

Entre os argumentos mais utilizados por conhecidos sócios do Sporting na Comunicação Social Portuguesa em favor da perda por parte do Sporting Clube de Portugal da posição maioritária na Sporting SAD, é que nos clubes mais poderosos da Europa, as respectivas Sociedades Desportivas pertencem a investidores privados ou que no caso do Real Madrid ou Barcelona, apesar de não existirem Sociedade Desportivas nestes dois casos, tem Assembleias Gerais Delegadas. De facto, estabelecer um nexo causal entre o sucesso desportivo do Real Madrid e do Barcelona e o facto de isso se dever a ambos os clubes terem Assembleias Gerais Delegadas, quando se sabe de antemão que nas eleições que elegem os Orgãos Sociais de Real Madrid e Barcelona podem participar todos os sócios com capacidade eleitoral activa e não apenas os sócios delegados, é de uma desonestidade intelectual a toda a prova, e demonstra a demagogia ou falta de conhecimento dos referidos sócios que escrevem nos jornais ou que aparecem na TV a argumentar a favor da alienação da maioria do Capital social da Sporting SAD a investidores privados. Para além de Real Madrid e Barcelona, também o At.Bilbau tem o mesmo modelo de funcionamento em termos de associação desportiva, tendo no entanto uma característica identitária que o diferencia, e que potencialmente limita o seu sucesso desportivo: na sua equipa de futebol, apenas podem jogar jogadores bascos. Na ultima década do futebol espanhol (ano em curso não completado e restantes nove épocas anteriores), as associações desportivas dominadas pelos seus sócios ganharam 8 títulos de Campeão Espanhol (Barcelona-6 e Real Madrid-2) e a Sociedade Desportiva do At.Madrid dominada por investidores privados foi campeã apenas uma única vez. Por outro lado, a modelo alemão é constantemente ignorado pelos mesmos sócios do Sporting que são defensores da alienação da maioria do Capital social da Sporting SAD a investidores privados, até em detrimento do futebol italiano e do futebol francês. Na ultima década (ano em curso e ultimas nove épocas), o Bayern Munique foi Campeão Alemão por 7 vezes e o Borussia Dortmund foi Campeão Alemão por 2 vezes. Ambos os clubes (no Top 5 na média de espectadores de clubes europeus) são clubes de sócios, em que os mesmos tem participação democrática nas tomadas de decisão dentro do próprio clube. Entre os accionistas minoritários do Bayern Munique, encontram-se empresas de referência como a Audi, Allianz e Adidas.


O futebol alemão tem como característica a regra dos 50%+1, o que proíbe que clubes tenham accionistas privados maioritários. Porém, há excepções que normalmente contam com a rejeição de grande parte dos sócios dos outros clubes. Somente clubes que tenham recebido investimento ininterrupto e significativo de investidores minoritários durante 20 anos podem escapar a esta regra, como ocorreu com o Hoffenheim, que pertence a Dietmar Hopp como accionista maioritário, ou o Wolfsburg e o Bayer Leverkusen, que contam com uma relação histórica com a Volkswagen e a Bayer, respectivamente. O RB Leipzig, por sua vez, é um clube fundado em 2009 e que ascendeu rapidamente das divisões regionais para as primeiras posições da Bundesliga. Com o apoio da Red Bull por trás, o clube conseguiu “driblar” a lei dos 50%+1 e, por isso, tem tido uma forte rejeição da maior dos adeptos dos outros clubes. Muitos clubes alemães têm um grande número de sócios nas suas associações desportivas, os quais não servem apenas como uma fonte significativa de renda para os clubes, mas também têm direito de voto, fazendo os mesmos parte do processo democrático de tomada de decisão dentro do próprio clube. As excepções da regra “50%+1” são frequentemente criticadas, principalmente pelos sócios que argumentam que tais prácticas de mercado irão destruir os valores tradicionais do futebol, defendendo estes sócios que investidores privados maioritários vão trazer demasiada “comercialização” ao desporto e que os clubes podem cair nas mãos de aventureiros, com aumento do preços dos bilhetes e consequente redução dos espectadores nos estádios. Muitos sócios dos clubes acreditam que a regra do “50%+1” assegura mais estabilidade e protege os clubes do risco de maus investidores, e mantêm o poder de decisão nos seus sócios.


Entre os clubes que mais defendem a regra “50%+1” encontram-se Borussia Dortmund e Friburgo. "Todos sabem que o Borussia Dortmund é um claro defensor da regra 50%+1. Pensamos que isso não deve ser alterado.", disse Hans-Joachim Watzke, dirigente do Borussia Dortmund. "Esta regra mostra muito bem a essência e a cultura do futebol alemão. Vale a pena lutar para continuarmos por isso", disse Jochen Saier, dirigente do Friburgo. Nas bancadas, os sócios dos clubes demonstram constantemente o seu apoio à actual regulamentação “50%+1”. Cerca de três mil grupos organizados de diferentes clubes da Alemanha enviaram uma carta conjunta ao próprio Presidente da Federação Alemã de Futebol defendendo todos eles a importância da manutenção da regra “50%+1”: “O futebol une centenas de milhares de pessoas todas as semanas. Ele não pertence a indivíduos, companhias ou investidores. Ele pertence a todos nós e não se deveria tornar cada vez mais um brinquedo de poucos. A omissão ou o relaxamento sobre a regra poderia mudar fundamentalmente o futebol. A pressão competitiva aumentaria sobre todos os clubes. O poder financeiro de alguns poucos donos poderia repentinamente ser mais importante que o trabalho sólido de outros. No fim, é sobre o dinheiro sendo passado aos mesmos que lucram. Isso não é o melhor para os adeptos e a responsabilidade social fica mais fraca. Muito se discute sobre a competitividade internacional da Bundesliga. Mas queremos realmente orientar-nos pelos salários insanos de Paris ou pelo mercado maluco da Inglaterra? Em vez de se lançar um debate sobre como o futebol profissional está ficando cada vez mais distante da realidade quotidiana em muitos aspectos, é a regra do “50%+1” que é posta em debate. Mas não deixaremos que ela se vá”. Hans-Joachim Watzke, dirigente do Borussia Dortmund, defende que os investidores podem não ser necessariamente uma coisa boa: “A maioria dos clubes não vai conseguir um Roman Abramovich, que em primeiro lugar quer ver o Chelsea ganhar. A maioria dos investidores querem mesmo é ganhar dinheiro. E onde é que eles o obtêm? Dos espectadores. O espectador alemão tradicionalmente tem laços estreitos com o seu clube. E se ele tem a sensação de que ele não é mais considerado como um adepto, mas sim como um cliente, teremos um problema”. Hans-Joachim Watzke diz: "Um investidor em Dortmund logo transformará os 28.000 lugares em pé para 15.000 assentos, o que garantiria vários milhões de euros a mais por ano, mas eu não quero que os adeptos sejam ordenhados como está a acontecer em Inglaterra. No futebol inglês, os adeptos aceitam que são mais clientes do que membros do clube. Hoje, temos 154 mil associados. Todos querem ser parte do clube, não tratados como clientes. Essa é a grande diferença. Esse é o espírito que diferencia o futebol alemão dos demais. Atraímos 81 mil adeptos em todos os jogos, mas temos 28 mil lugares de pé, onde o custo dos ingressos é entre € 11 e € 14. Esse é o caminho do Borussia Dortmund. De momento, há mais dinheiro na Inglaterra, mas talvez daqui a 20 ou 50 anos, possamos mostrar que o nosso modelo é o melhor”.  Por outro lado em Inglaterra, as equipas de futebol são propriedade de investidores privados. Para além da cisão que existiu no Manchester United com base no descontentamento dos adeptos relativamente aos donos americanos (Familia Glazer) e que determinou por consequência a fundação em 2005 do F.C.United of Manchester por muitos adeptos não concordarem com o caminho que o Manchester United estava a seguir, temos ainda que destacar para o que se passou no Arsenal. Em Janeiro de 2019, foi divulgada a informação que o bilionário americano dono do Arsenal não investiu um cêntimo no clube nos dez anos anteriores, algo que naturalmente deixou os adeptos “gunners” à beira de um ataque de nervos. Figura pouco apreciada pelos adeptos do Arsenal, Kroenke decidiu na última década apostar unicamente nas verbas geradas directamente pelo clube, tais como patrocínios, direitos televisivos, prémios e marketing, uma solução que se tem revelado desastrosa para os “gunners”, que ano após ano têm ficado arredados da luta pelos principais títulos do futebol inglês. Recorde-se que em Portugal alguém com interesses numa SAD, uma vez disse: "O Arsenal é um clube de sucesso porque dá lucro, apesar de não ganhar nada". Na minha opinião, de acordo com as razões acima explicadas, o modelo alemão “50%+1” é o mais sustentável em termos de prespectiva de desenvolvimento do futebol a largo prazo, pois não gostaria de ver um “Red Bull Sporting Portugal” ou um “Sporting by Apollo”, sendo que a perda de maioria do capital social da SAD por parte de um clube será sempre um caminho muito difícil de reverter, como é exemplo mais recente o que se tem passado com o Clube de Futebol “Os Belenenses”. Obviamente, que a transposição do modelo alemão para a realidade portuguesa, deve ter em consideração as especificidades muito próprias do nosso país, e no caso do Sporting, as condições muito particulares da vida associativa do clube. Mais, o Sporting Clube de Portugal tem adicionalmente uma matriz eclética de clube multi-desportivo, a qual apenas encontra provavelmente paralelo, em termos europeus, no Barcelona. Entendo que esta identidade diferenciadora relativamente aos outros clubes reforça ainda mais a incompatibilidade com a perda de maioria do capital social do clube na sua Sociedade Anónima Desportiva, sob pena de se colocar em risco a dinâmica de sustentabilidade financeira das actividades desportivas desenvolvidas no âmbito do próprio clube. Espero que os conhecidos sócios do Sporting Clube de Portugal que publicamente têm defendido nos últimos tempos a perda de maioria do capital social da Sporting SAD por parte do Sporing Clube de Portugal, coloquem os “olhos” no modelo alemão (50%+1), no qual estão incluídos alguns dos maiores clubes da Europa como o Bayern Munique e Borussia Dortmund, e no modelo espanhol de associação desportiva de que são exemplos alguns dos maiores clubes da Europa como o Real Madrid e o Barcelona. Como disse um dia o Visconde de Alvalade: “Que o Sporting seja um grande Clube, tão grande como os maiores da Europa”.

Saudações leoninas.


Afonso Pinto Coelho

15/04/2020


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