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  • Opinião com Assinatura

Afonso Pinto Coelho 12/08/2020 - As causas da desunião



Muito se tem falado nos ultimos tempos que o Sporting está fragmentado, fracturado, partido ou desunido. No entanto, poucos ousam falar acerca das verdadeiras razões da profunda divisão que afecta a massa associativa do Sporting Clube de Portugal.

Do meu ponto de vista, as verdadeiras origens da desunião remontam à actuação do então demissionário ex-presidente da Mesa da Assembleia-Geral e por consequência à actuação da Comissão de Fiscalização designada por si.



Tudo começou com as declarações, em directo na televisão, do então ex-presidente da Mesa da Assembleia Geral em que o mesmo disse que o orgão social a que presidiu se demitiu em bloco, inclusive ele próprio, como fez questao de referir. Independentemente de eventuais interpretações juridicas das consequências da afirmação do então demissiorário ex-presidente da Mesa da Assembleia-Geral, existe uma decisão que ele deveria ter evitado tomar, na medida em que a ex-Mesa da Assembleia-Geral estava demissionária: a convocatória de uma Assembleia-Geral destitutiva por sua iniciativa (art 51 nº1 a) dos estatutos do SCP) no dia 28 de Maio de 2018, e não por iniciativa de um grupo de sócios representativos de mais de 1.000 votos (art 51 nº1 c) dos estatutos do SCP). Pelo que se sabe, a referida Assembleia-Geral custou ao Sporting cerca de 194.000 euros a ser pagos pelo clube, sendo que os “fundamentos da justa causa” apenas foram tornados públicos no dia 15 de Junho de 2018, ou seja, 18 (!) dias depois da convocatória da mesma.



Nessa altura, integrei um grupo de sócios que dirigiu uma carta ao então demissionário ex-presidente da Mesa da Assembleia-Geral em que dizia no seu ponto 5: “Qualquer sombra que recaia sobre o processo de votação e contagem dos votos terá implicações gravissimas no futuro imediato do clube, bem como no agravamento substancial do clima de litigiosidade e animosidade entre sócios, podendo mesmo contribuir para a instalação de cenário de “guerra civil” no interior do nosso clube. Mais, na mesma carta se solicitava uma reunião para “definição conjunta de processo e forma de supervisão e controlo da votação e contagem dos votos”. O então demissionário ex-presidente da Mesa da Assembleia-Geral optou por não responder à carta como ele próprio disse. Mais, disse: “Não precisamos mais do que os funcionários do Sporting, que sempre estiveram nessas funções”. Surpreendemente, nos dias anteriores à referida Assembleia-Geral, uma conhecida sócia colocou nas redes sociais uma publicação a recrutar “delegados” para as urnas “para validar e controlar a legalidade das votações e da própria AG”. Quem esteve na Assembleia-Geral de 23 de Junho de 2018, sabe que na zona reservada da contagem de votos estavam muitas pessoas que não eram funcionárias do clube, todas elas a favor da destituição do anterior Conselho Directivo do clube, sendo que algumas das quais até integram (ou integravam) os actuais Orgãos Sociais do clube.


A própria Comissão de Fiscalização nomeada pelo então demissionário ex-presidente da Mesa da Assembleia-Geral nunca deveria ter tomado decisões (de suspensão de sócios) que resultaram de uma participação disciplinar de um grupo de outros sócios, dos quais ainda hoje se desconhece publicamente a sua identidade. A referida Comissão de Fiscalização deveria ter feito uma opção politica de se limitar à instrução do processo, deixando qualquer tomada de decisão para o novo Conselho Fiscal e Disciplinar a eleger em Setembro de 2018, na medida em que essa Comissão de Fiscalização não tinha a legitimidade politica tipica da democracia, pois a mesma não lhe foi conferida pelos sócios através de eleições.


As decisões das suspensões de sócios impediram dois candidatos de ir a eleições, e impediram mesmo uma lista de ser aceite (depois de entregue) no processo eleitoral em mais uma decisão altamente questionável da parte do então demissionário ex-presidente da Mesa da Assembleia-Geral, pois considerou de imediato essa mesma lista como nula sem qualquer possibilidade de correcção de eventuais irregularidades formais, e concedeu a outras listas a possibilidade de corrigir as irregularidades formais que ele próprio identificou.


Em conclusão, a actual divisão na massa associativa do clube resulta dos factos que acima referi, e que muitos insistem em omitir. Os problemas que existem actualmente apenas se poderão resolver com uma liderança forte e pragmática no clube que tome decisões para agregar a massa associativa e que não fuja a estas questões, pois mesmo que se procure afastar estes problemas com vitórias desportivas efémeras, estes permanecerão e voltarão mais tarde ou mais cedo à vida associativa do clube se não forem tomadas decisões corajosas para repôr a “legalidade democrática”.

Uma nota final para o José Cardoso, um enorme sportinguista e grande ser humano que nos deixou ontem. Conheci o José no Verão de 2018. Sempre o conheci como uma pessoa muito determinada na defesa dos seus principios, valores e ideais, e mesmo algumas limitações que tinha em termos de mobilidade, nunca o impediram de dizer “sempre presente” quando ele entendeu que a sua presença era necessária na vida do nosso clube. Estarás para sempre no nosso coração.

Até sempre José!

Saudações leoninas!



Afonso Pinto Coelho

12/08/2020


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