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Afonso Pinto Coelho 09/09/2020 - A falácia do lucro da Sporting Futebol SAD

Atualizado: Set 10



Foi tornado público na passada segunda-feira o Relatório & Contas Anual da Sporting Futebol SAD referente ao exercício económico 2019/2020 (Período compreendido entre 1 de Julho de 2019 e 30 de Junho de 2020).

Em primeiro lugar importa referir que a principal objectivo de uma Sociedade Desportiva e/ou Clube Desportivo deve ser o sucesso desportivo, desde que o mesmo não coloque em causa a sua sustentabilidade económica-financeira. Contrariamente às outras sociedades comerciais, as sociedades desportivas tem esta especificidade própria da variável sucesso desportivo. Como todos sabemos, na primeira época da exclusiva responsabilidade da actual Administração da Sporting Futebol SAD, os resultados desportivos foram desastrosos (4º lugar na Liga NOS atrás de um clube com um orçamento quase três vezes inferior e zero títulos nas restantes competições, com eliminações nas diferentes provas a eliminar frente a equipas de menor valia e uma humilhante derrota na Supertaça) e com 3 mudanças de treinador durante a época, ou seja, uma das piores épocas desportivas da história do Sporting Clube de Portugal em termos de futebol sénior masculino e absolutamente incompatível com o estatuto e dimensão do clube no panorama do futebol português. No entanto, se olharmos para o Relatório & Contas anual da Sporting Futebol SAD 2019/2020, verificamos que o exercício económico registou um lucro de 13,707 Milhões de Euros, o qual mesmo assim não chegou para reverter a situação de falência técnica da Sociedade (Capital Próprio Negativo).



Importa referir que este resultado positivo é explicado através dos Resultados operacionais das transacções com jogadores, nomeadamente do reduzido valor recebido pelo acordo com o Olympiacos relativo ao jogador Daniel Podence e dos valores recebidos relativamente às transferências dos jogadores Bruno Fernandes, Raphinha, Thierry Correia, Matheus Pereira, Félix Correia, Domingos Duarte, Iuri Medeiros e Bast Dost que totalizaram 119,632 Milhões de Euros com gastos associados à vendas de 15,482 Milhões de Euros.



As transferências de alguns destes jogadores enfraqueceram muito a capacidade competitiva da equipa, sendo que em muitas das transferências realizadas, o valor da transferência pago pelo clube de destino dos jogadores ficou muito abaixo do valor de mercado dos respectivos jogadores. Mais, pode-se ainda questionar algumas das opções estratégicas da Administração da Sporting Futebol SAD relativamente a alguns dos jogadores transferidos, quando é sabido que o Sporting foi contratar durante a época o então treinador do clube ficou na 3ª posição da classificação final por um valor de mais de 10 Milhões de Euros a serem pagos ao clube de origem desse treinador. Por outro lado, todos os jogadores transferidos tem em comum o facto de nenhum deles ter chegado ao clube através da actual Administração da Sporting SAD. No entanto, se olharmos para os Resultados Operacionais sem transacção de jogadores, verificamos uma degradação dos mesmos pelo segundo exercício económico consecutivo, através da diminuição dos Rendimentos e ganhos operacionais sem transacções de jogadores e do aumento dos Gastos e Perdas operacionais sem transacções de jogadores, os quais não podem ser explicados unicamente pelo impacto directo da pandemia Covid-19 (3,672 Milhões de Euros) nos últimos 4 meses do exercício económico em questão, até porque como é público existiu um período de lay-off na Sporting Futebol SAD, que resultou numa diminuição dos Gastos com o Pessoal em 3,3 Milhões de Euros.



Curiosamente, mesmo sem pandemia Covid-19 o recorde de vendas de Gameboxes não seria atingido, pois na época 2017/2018 o valor desta rubrica foi de 6,067 Milhões de Euros e em 2016/2017 o valor homologo da mesma rubrica foi de 5,628 Milhões de Euros, enquanto que o valor em 2019/2020 (sem pandemia Covid-19 ) seria de 5,606 Milhões de Euros, ainda assim inferior as épocas anteriores referidas, sendo que o valor potencial máximo de reembolso desta rubrica por via da pandemia pode ascender a 1,192 Milhões de Euros.



Por outro lado, pelo segundo exercício económico consecutivo, assistimos também à deterioração dos Resultados Financeiros, a qual se explica em grande parte pelo elevado montante de juros pagos relativamente à operação de titularização de Crédito formalizada com a Sagasta por uma taxa de juro média que continua sem ser revelada aos accionistas da Sporting Futebol SAD e sócios do accionista maioritário (Sporting Clube de Portugal) por parte da actual Administração da Sociedade e do Conselho Directivo do Sporting Clube de Portugal, respectivamente.



Em grande parte por via da operação de titularização de crédito, os resultados financeiros passaram de -7,074 Milhões de Euros no exercício económico 2017/2018 para -10,405 Milhões de Euros no exercício económico 2018/2019 e para -15,401 Milhões de Euros no exercício económico 2019/2020. Por ultimo, destaco também o aumento das dividas a fornecedores pela segunda vez consecutiva no final do exercício económico: 30/6/2018 (44,029 Milhões de Euros), 30/6/2019 (47,967 Milhões de Euros) e 30/6/2020 (55,957 Milhões de Euros).



Na terça-feira, dia 29 de Setembro de 2020 pelas 18h no Auditório Artur Agostinho, sito no Estádio José Alvalade, terá lugar a respectiva Assembleia-Geral de Accionistas da Sociedade para deliberar sobre este mesmo Relatório & Contas, sobre a aplicação dos resultados relativos ao respectivo exercício, bem como apreciar a Administração e fiscalização da Sociedade, para além de outros dois pontos da ordem de trabalhos.

Como nota final, chamo a atenção para a divulgação na passada semana por parte da Liga Portuguesa de Futebol Profissional dos números oficiais de espectadores da Liga NOS relativamente à época 2019/2020. Se visualizarmos as assistências médias do Sporting Clube de Portugal nos jogos no seu estádio, temos: 30.234 espectadores (época 2019/2020), 33.691 espectadores (época 2018/2019), 43.674 espectadores (época 2017/2018), 42.772 espectadores (época 2016/2017), 39.886 espectadores (época 2015/2016), 34.988 espectadores (2014/2015), 33.703 espectadores (2013/2014). Verificamos que existiu uma tendência de crescimento (em todas as épocas) da média de espectadores no estádio desde a época 2013/2014 até à época 2017/2018, e depois logo após a entrada da actual Administração da Sporting SAD (época 2018/2019 e época 2019/2020) um decréscimo da média de espectadores em dois anos consecutivos, decréscimo esse que provavelmente apenas não assumiu maiores proporções na época 2019/2020 porque a média de espectadores apenas inclui 12 jogos (pelo efeito pandemia Covid-19) em vez dos habituais 17 jogos, e por nesses 12 jogos estarem incluídos os jogos com os outros 2 grandes do futebol português que normalmente tem assistências bem superiores aos restantes jogos por razões óbvias. Como conclusão, entre a época 2017/2018 e a época 2019/2020 deixaram de ir ao estádio em média 13.440 pessoas, o que equivale a uma queda de espectadores de mais de 30%, o que não deixa de ser assustador com todas as consequências que essa evidência acarreta.


Saudações leoninas!



Afonso Pinto Coelho

09/09/2020




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