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A Cláusula Rui Patrício



Autor: Rugido Verde


O guarda-redes Rui Patrício estreou-se na equipa principal do Sporting em Novembro de 2006, lançado por Paulo Bento. A aposta que se seguiu esteve longe de ser pacífica, mostrando ser em diversas ocasiões prematura, mas a incompatibilidade de Paulo Bento com o sérvio Stojkovic tornou-a inevitável. Tudo começou numa crítica pública de Bento a um lance de jogo no estádio do Dragão, pelo fato de Stojkovic ter agarrado uma bola de interpretação duvidosa em lugar de a afastar – um lance comum que poderia perfeitamente ter tido interpretação do árbitro no sentido inverso – sendo trucidado publicamente pelo treinador. Bento, de caráter muito vincado e extremamente teimoso, afirmando sistematicamente que não era assim o desfecho, conduziu o sérvio a uma prolongada paragem e colocou desde essa altura um ponto final na carreira do guardião em Alvalade.



1. Frangos, Reconhecimento e Dinheiro


A aposta em Rui Patrício foi dolorosa: a inexperiência custou pontos em múltiplas ocasiões nos anos que se seguiram. Teve, no entanto, o apoio dos adeptos e equipas técnicas, até se converter num guardião sólido, estatuto que apenas anos depois adquiriu junto da massa associativa, não sendo sequer consensual na baliza da seleção nacional até à rescisão, como comprovam as muitas críticas recebidas na comunicação social por parte de comentadores. Desde esse último episódio, passou a receber os mais rasgados elogios da carreira desses mesmos críticos mediáticos com lugar cativo. Pelo caminho (irregular) no clube, foi sendo progressivamente recompensado financeiramente. Após uma melhoria substancial em 2008, em 2012 viu o seu vínculo novamente renovado com um elevado incremento salarial, passando a auferir acima de um milhão de euros, tal como Adrien Silva, num episódio de chantagem a Godinho Lopes. A renovação implicou a cedência de parte do passe, 17.5%, a Jorge Mendes como condição, somados a outros 17.5% que reclamou para si próprio, sendo intenção de Mendes transferi-lo por um valor a rondar os 10 milhões de euros (notícia de 24 de Julho de 2013 colocada a circular como pressão para a venda, que já fora antecedida por outra a 24 de Março de 2013; nesta ocasião por um meio inglês, no mesmo dia em que Bruno de Carvalho acabara de ser eleito). Tudo com o aval do guardião português.


Bruno de Carvalho e Jorge Mendes, Sem Filtro, p. 62


A administração de Bruno de Carvalho recusou a pressão numa equipa depauperada, com passes alienados a terceiros (Sporting Stars Fund do BES, Quality Football Ireland Limited, e Holdimo) e com um orçamento de apenas 25 milhões de euros na sequência de um PER na mesa e da venda de Ricky van Wolfswinkel para pagar salários dias antes da eleição.


Bruno de Carvalho e Rui Patrício, Sem Filtro, p. 63


Bruno de Carvalho e Jorge Mendes, Sem Filtro, p. 64


Em Março de 2016, após uma fulgurante recuperação financeira e competitiva, Patrício viu o vínculo novamente renovado, passando a auferir um luxuoso salário de 2.4 milhões de euros, que o satisfez por pouco tempo: a vitória no Europeu em Julho de 2016 fez regressar a prática antiga e foi feita tábua rasa do acordado.



2. A Cláusula Rui Patrício


Foram várias as trocas virtuais de empresário da parte de Rui Patrício, que seguiram um padrão estranhamente comum que se verifica com vários jogadores e treinadores, justificado numa alegada rivalidade. Mendes não tem qualquer rival genuíno em território nacional, recebendo parcelas de negócios nos quais não se envolve devido ao poder da sua extensa teia de influência. Começando com Carlos Gonçalves (Proeleven), Rui Patrício passou posteriormente para Jorge Mendes (Gestifute), passando depois novamente para… Carlos Gonçalves, até finalmente ter Mendes no processo de rescisão e colocação, sem uma única palavra ou obstrução de um desaparecido Carlos. Tal como Mendes, curiosamente Carlos Gonçalves é também arguido na operação Fora de Jogo.



Foi revelado num excelente artigo de investigação do Expresso que Jorge Mendes encaixou numa fase inicial, pré-acordo entre clubes (recebendo ainda mais posteriormente), uma verba de 3.6 milhões de euros do Wolverhampton a serem pagos em três parcelas, através do ex-jogador do Sporting Hugo Valdir (embolsou 105 mil euros) e da sua Talents Throne, sediada em Alcochete. A Talents Throne foi constituída em Fevereiro de 2018, coincidindo temporalmente com o acordo Jorge Jesus-Benfica (explorado no link), com uma procuração passada nessa data curiosamente também em Alcochete a Rogério Alves, a menos de 4 meses da rescisão do guarda-redes.



Com a posterior assinatura pelo Wolverhampton, Rui Patrício passou de um vencimento de 2.4 milhões de euros para 6 milhões de euros. Patrício usufruiu ainda de dois bónus no novo contrato, cada um no valor de 2.3 milhões de euros (num total de 4,6 milhões, o segundo a ser pago ao longo do contrato), destruindo a narrativa que foi colocada a circular na altura. Passou ainda inadvertido um elemento crucial. Uma terceira cláusula que se quis também ocultar, que constitui uma grande mentira e define todo o processo. A cláusula Rui Patrício:


“Mas Patrício comprometeu-se a desenvolver todos os esforços para baixar o valor dessa indemnização. O acordo previa montantes diferenciados consoante o desfecho do conflito com os leões. Assim, se o jogador ou o clube nada tivessem que pagar ao Sporting, então o Wolves ofereceria a Rui Patrício um prémio de 4 milhões de libras.”

Expresso


Esta cláusula adicional criativamente maquiavélica que se soma aos prémios, para a qual “cuspir no prato” (e nos adeptos) é um gigantesco eufemismo, foi passada de forma distorcida na imprensa, com algumas vítimas por arrasto num setor em crise e profundamente manietado.


As mentiras e a manipulação não ficaram por aqui.


3. O Acordo entre Amigos



Na imagem podem observar várias mentiras referidas por Frederico Varandas, nomeadamente a verba encaixada, o prémio de assinatura, que foi recebido na íntegra, e ainda o assumir de uma dívida legalmente inexistente como desculpa para recompensar a Gestifute. Outras mentiras poderiam ser acrescentadas, como podem ver aqui. Como é sabido através dos Relatórios e Contas, apenas 12.043 milhões de euros deram entrada no Sporting. O restante foi atribuído à Gestifute e ao “protocolo Wang”, que nunca existiu. Ao argumento das máquinas de comunicação profissionais e dos seus intensivos funcionários, de que “é melhor do que nada“, existem três respostas fatuais e por isso impossíveis de contrariar.


A primeira, consiste no desfecho de Rafael Leão, um jogador com um salário muito inferior, cláusula de rescisão idêntica, muito menos peso internacional, que não recusou qualquer prémio de jogo (leiam o último ponto deste artigo) diante do rival Benfica na disputa pelo acesso à Champions ao contrário de Patrício, que não fez acusações diante do grupo à administração, e que acabou condenado ao pagamento de 16.5 milhões de euros acrescidos de juros. Verba que seria ainda superior caso as declarações no TAD do atual presidente não tivessem procurado diminuir o valor do jogador e atribuir culpas de forma compulsiva à anterior administração do Sporting, tal como fez na lamentável prestação em Monsanto no famoso “este depoimento não bate com nada” proferido por uma juíza.


A segunda, consiste na possibilidade de factoring, ou seja, no adiantamento de receitas em caso de necessidades de tesouraria, como sucedeu com o negócio Apollo, que contou comprovadamente com a Stormharbour (famosa pelos swaps ao IGCP) como assessora de uma das partes apesar do conflito de interesse que jornalistas e acionistas da SAD poderão apurar junto do escritório de advogados PLMJ e Francisco Salgado Zenha: fica lançado o desafio. O juro sempre foi de um estonteante 8% anual, somado a comissões. A terceira, está no próprio contrato assinado com o Wolverhampton, no meio das cláusulas referidas acima:


“O Wolves aceitava assumir os custos que eventualmente a FIFA ou outro organismo viesse a imputar a Rui Patrício pela rescisão unilateral do contrato com o Sporting.”

Expresso


No processo junto da FIFA, era reclamada uma verba no valor de 54.7 milhões de euros, que seriam então assumidos pelo milionário Wolverhampton.


Com a entrada de apenas 12.043 milhões de euros, com o primeiro pagamento de 3.6 milhões de euros do Wolverhampton, e com os gastos associados pagos pela atual administração do Sporting no valor de 5.957 milhões de euros, Jorge Mendes encaixou apenas na operação Rui Patrício o total aproximado de 9.56 milhões de euros. Já Rui Patrício encaixou 4.6 milhões de euros e viu o vencimento triplicado, passando a ser o jogador mais bem pago do clube inglês juntamente com João Moutinho. Face ao magnífico acordo alcançado entre clubes, não poderia ser de outra forma.


4. Os Favores Pagam-se



Além do muito dinheiro distribuído, existem outras formas de pagamento que não envolvem numerário: a gratidão é multifacetada. No dia 26 de Agosto de 2018, no decorrer da estranha e numerosa campanha eleitoral condicionada, José Maria Ricciardi acusou Frederico Varandas de se ter “trancado” no seu departamento, tendo depois “aparecido a rir”. “Quem lá esteve contou-me, um deles, o Rui Patrício. Depois andou a tirar fotos da cabeça do Bas Dost”. Prontamente, e surpreendentemente (ou não), o guarda-redes deu instruções para ser publicado um desmentido nas suas redes sociais menos de 24 horas depois, defendendo o médico-candidato. Ricciardi esteve próximo da realidade nesta ocasião, falhando por muito pouco. Não se trancou, aguardou tranquilamente, e quanto ao restante não é tema deste artigo, havendo várias pessoas que sabem a resposta certa. Nenhuma delas é parte da muda imprensa.


Em Novembro de 2018, Rui Patrício divulgou nas redes sociais ter investido uma quantia indeterminada, aparentemente simbólica, no empréstimo obrigacionista lançado pela administração Varandas, que acabou por falhar no objetivo ao não cativar os associados no desfile de notáveis e rescisores. O próprio médico, principescamente pago pelo clube desde 2011 (no ano do PER embolsou 161 mil euros), com um aumento adicional que recentemente entrou em vigor, apenas investiu mil euros.



Em finais de 2019, Patrício passou a constar de um mural de destaque na academia.



5. Bailando


O processo na FIFA, não decorrendo no TAD e assim evitando rejeição (denominada como “incompetência para julgar”) por estar já a decorrer noutra instância, era encabeçado pelo reputado advogado espanhol Juan de Dios Crespo. Face ao desenlace Rafael Leão, no TAD português, que contava até com árbitros do escritório PLMJ (por exemplo, José Ricardo Gonçalves), que assessoraram pro bono rescisões e a demissionária Mesa da Assembleia Geral no combate contra o Conselho Diretivo e a recandidatura de Bruno de Carvalho e restantes ex-colegas de administração, era inevitável o mesmo desenlace mas com uma verba substancialmente superior à de Leão.


Rapidamente, após a entrada da administração de Frederico Varandas, o advogado espanhol desapareceu de cena. Como podem ver, o seu nome constava de forma clara na queixa apresentada contra Rui Patrício e o Wolverhampton.


Várias fontes confirmaram o seu afastamento com a celebração dos acordos, dos quais foi mantido distante, algo que o clube se apressou a desmentir em Março de 2020 face à revolta nas redes sociais, através de uma notícia não assinada num jornal parceiro da comunicação do clube e sem qualquer prova documental fornecida. Uma prática contrária ao que foi feito em variadas ocasiões pelo clube, com leaks parciais e narrativamente construídos (como a tentativa falhada em culpar Augusto Inácio, nem sequer presente no julgamento por opção do clube, pela indemnização a Mijhajlović após despedimento por parte de Sousa Cintra a mando de terceiro). Pelo sigilo profissional imposto, o advogado não voltou a falar do Sporting, recusando sempre abordar o tema e o nome do clube. Outro advogado presente nos documentos, João Lobão, foi despedido em finais de Junho de 2019, dois meses antes do último acordo, Podence e Olympiacos, ser oficializado. Não obstante o despedimento foi por matérias não relacionadas, de acordo com pessoas ligadas ao clube, não havendo neste caso qualquer razão para duvidar do invocado no seu afastamento.


O acordo Podence, a 31 de Agosto de 2019, resultou num encaixe de 6.3 milhões de euros como consta dos Relatórios e Contas, tendo o pequeno indivíduo, em dimensão e mente (ilustrado pelo vídeo abaixo), logo de seguida visto o seu contrato renovado pelo Olympiacos como recompensa pelo simpático acordo alcançado por Jorge Mendes e Frederico Varandas.


https://twitter.com/3Sporting/status/1227908544588058624?s=20


Cinco meses depois foi transferido para o Wolverhampton por um valor três vezes superior, a rondar os 20 milhões de euros


6. Notas Adicionais e Considerações Finais: Mais Mentiras, Monsanto e os Heróis que se Merecem


Poderíamos ainda falar do lesivo acordo Gelson Martins, outro jogador com derrota assegurada que conhecia pessoas envolvidas no episódio de Alcochete e que foi avisado por SMS. O advogado de Rui Patrício apressou-se a justificar preventivamente a ocorrência na ridícula carta de rescisão do guarda-redes, com um cirurgicamente inserido “Gelson não viu a SMS antes“, por justificado receio das consequências legais.



Posteriormente em Monsanto, Patrício proferiu várias mentiras, das quais destacamos a seguinte afirmação.

“Antes do jogo com o Benfica, o mister Jorge Jesus veio falar comigo como capitão porque o presidente queria dar um prémio de meio milhão em caso de vitória. A condição era ser ele (BdC) a entregar no balneário. Falei com o grupo e, depois do que tinha acontecido, do que tinha escrito e do que tinha insinuado, não aceitámos.” Rui Patrício em Monsanto (6/1/2020)


Como é sabido por quem acompanhou o julgamento por boas fontes que não a maioria da imprensa (infelizmente) que fez o acompanhamento, nenhum jogador disse ter tido conhecimento de tal prémio quando inesperadamente questionados pelos advogados ao respeito. Inclusivamente William, logo ele, afirmou nunca ter ouvido falar nisso. Simplesmente, não chegou intencionalmente ao grupo de trabalho. Na verdade, o prémio foi comunicado apenas ao então team manager André Geraldes, não existindo sequer condição, sendo a declaração acima falsa e estando registado no processo. Faltou também à verdade ao afirmar que nenhum jogador tinha falado com Bruno de Carvalho, algo que se provou igualmente completamente falso. Rúben Ribeiro descaiu-se em tribunal, afirmando que Patrício e Jorge Jesus tentaram que os jogadores não falassem com Bruno de Carvalho, antes de se arrepender da confissão ouvida por todos os presentes na sala. As mentiras a destacar seriam muitas.


Apesar do referido, o foco neste artigo é a cláusula especial de Rui Patrício e as várias mentiras com que os adeptos Sportinguistas foram brindados pelo guardião que lhes fez “um manguito” e lhes virou as costas após o suspeito jogo diante do Marítimo, com a atuação do então treinador a ter sido já enquadrada no artigo da passada semana. Numa ocasião futura serão esmiuçados outros casos e os ganhos, visto que nada deve ficar por saber no maior golpe alguma vez levado a cabo num clube desta dimensão.


No fim, tendo a assinatura do acordo implicado a desistência do processo que estava em curso na FIFA e qualquer processo futuro, o jogador e o empresário ficaram protegidos. O Sporting apenas viu 12 milhões de euros, Jorge Mendes 9.56 milhões e Rui Patrício 4.6 milhões somados a um incremento do ordenado de 2.4 milhões para 6 milhões de euros. Somadas as partes, excluindo o ordenado, o negócio envolveu 26.2 milhões de euros, com o Sporting a obter menos de 46% da quantia. Para terem uma noção dos valores desviados, a academia de Alcochete teve o custo de 17 milhões de euros, enquanto que o pavilhão João Rocha custou apenas o que Jorge Mendes recebeu neste negócio. O guarda-redes não só usufruiu do prémio de assinatura, como fez questão de incluir e assinar uma cláusula inovadora que o recompensaria financeiramente quanto menos recebesse o clube que o formou, lançou e enriqueceu, ficando batizada como a cláusula Rui Patrício. Não foi nada de pessoal, Sportinguistas, era até a brincar, daí que muitos de vós ainda o aplaudam.


Foram muitos milhões “oferecidos”, só possíveis pela existência de uma estratégia conjunta, fundamental para a concretização do objetivo. Para essa estratégia ser bem sucedida, o anterior Conselho Diretivo teria de cair, e as suas figuras teriam de ser impedidas de ir a eleições. O risco dos processos serem levados até ao fim precisava de ser eliminado. Assim sucedeu: o dinheiro seguiu o destino traçado, distribuído por várias partes, e um novo/velho poder instalou-se. Foi o regresso de Jorge Mendes a Alvalade e o restabelecer da dinastia que governou desde 1996, com o apoio dos próprios adeptos do clube, após evitada a falência em 2013. Patrício foi elevado a herói, enquanto que Bruno de Carvalho, ficando à mercê de todo o tipo de ataques sem contraditório com o sucesso da queda, transformado mediaticamente num vilão de fábula.


A todos, tendo sido abordadas várias mentiras neste artigo: feliz dia 1 de Abril. O dia que o povo parece gostar mais, com os heróis que se merecem.



Texto escrito em parceria com www.brunodecarvalho.com


Rugido Verde

01/04/2021



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